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DESVENDANDO A SIMBOLOGIA OCULTA DE LISBOA
(I)
O GRANDE MISTÉRIO DO TERREIRO DO PAÇO *
(REPORTAGEM DE VICTOR MENDANHA IN "CORREIO DA MANHÃ", 16.6.1986)
______________________
DESVENDANDO A SIMBOLOGIA OCULTA DE LISBOA
(CONCLUSÃO)
AS HISTÓRIAS QUE OS MONUMENTOS NOS CONTAM
(REPORTAGEM DE VICTOR MENDANHA IN "CORREIO DA MANHÃ, 17.6.1986)
______________________
Jardim zoológico de lisboa
A IMITAÇÃO DO PARAÍSO BÍBLICO
(REPORTAGEM DE FERNANDO DACOSTA IN MAGAZINE DO "PÚBLICO", N. 157 7/3/1993)
______________________
LISBOA DO QUINTO IMPÉRIO
(REPORTAGEM DE MANUELA GONZAGA IN REVISTA 3 DE "O INDEPENDENTE", 8 a 14.10.1999)
Entrevistas
DESVENDANDO A SIMBOLOGIA OCULTA DE LISBOA
(I)
O GRANDE MISTÉRIO DO TERREIRO DO PAÇO *
(REPORTAGEM DE VICTOR MENDANHA IN "CORREIO DA MANHÃ", 16.6.1986)
A Praça do Comércio ou Terreiro do Paço foi
construído segundo o sagrado Livro de Thot, mais conhecido pelo nome de
Tarot, enquanto a Rua Augusta, ladeada pelas Ruas do Ouro e da Prata,
com o arco monumental, constituem um conjunto arquitectónico mas
iniciático capaz de nos abrir os olhos para o verdadeiro significado da
cidade de Lisboa.
Estas e muitas mais afirmações de índole ocultista,
sem dúvida a primeira vez trazidas a público nestes trabalhos de
reportagem, foram-nos feitas pelo cabalista Vitor Adrião, elemento da
Comunidade Teúrgica de Portugal, com ordem para divulgação, durante
alguns dias em que deam- bulámos por ruas e praças da capital do País,
aprendendo pelo nosso lado um pouco do muito que arquitectos e
escultores colocaram nas suas obras, para além da simples forma
modelada das matérias empregues.
E isto porque, para Vitor Adrião e para todos os
teúrgicos, "Lisboa é a cidade da velha Mãe Lusina, companheira do deus
Lug, a grande deusa dos Lígures e dos Celtas, a Boa Lusi ou Lusina, a
Lusibona ou Lisibona".
Como o que foi dito é, afinal, muito na forma e
importante no conteúdo, aqui ficam, apenas, os diálogos havidos durante
este nosso passeio pela cidade dos "Homens-Serpentes" e das sete
colinas, num esboço de roteiro capaz de interessar, quem sabe, a alguns
dos nossos leitores.
LISBOA DAS SETE COLINAS É UMA CIDADE SAGRADA
P. - Existe alguma relação entre a cidade de Lisboa e o antigo culto ao deus Lug?
R. - Lisboa está internamente ligada ao ancestral culto do deus Lug,
divindade suprema do pante- ão Lígure que, além de resistir à invasão
dos Celtas, assimilou os ocupantes recém-chegados, le- gando-lhes os
seus lugares (lug+ara, altar de Lug) de culto, as suas montanhas, rios
e pedras sa- gradas. Lug, deus tão antigo e poderosamente enraizado que
ainda hoje lhe surpreendemos o alento e os vestígios na toponímia das
Gálias e em todo o espaço da Península Ibérica onde os Ára- bes não
impuseram a sua presença e cultura.
P. - Entre esses vestígios quais são os mais os mais antigos ou possíveis de divulgar?
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- Devo declarar que boa parte das informações constantes nesta 1.ª
reportagem (aqui revista, corrigida e aumentada, assim como a 2.ª, para
não haver quaisquer imprecisões de ordem simbólica e historiográfica,
pois que na altura as reportagens foram efectuadas no terreno e tendo
eu como único recurso a memória imediata) tiveram como autor
consultado Olímpio N. Gonçalves (in "Lisboa à luz dos seus Arcanos"), e
na altura da entrevista, por precipitação ou descuido, seja como for
ignorando e assim podendo o lapso pessoal assumir-se relapso ao
entendimento do leitorado colectivo, não o citando, por culpa
exclusiva do entrevistado, nunca do entrevistador, pelo que rectifico,
como já o fiz em outras partes, devolvendo "o seu a seu dono". Seja
como for, esta foi a primeira entrevista de vanguarda sobre o
Esoterismo de Lisboa que alguma vez apareceu a público e, os pósteros,
que conheço, limitaram-se a copiar-me e, aí sim porque sei de fonte
directa, a ostracizarem declaradamente o autor, a minha pessoa e pena,
em que dei muito de inédito... mas não completo, por a LEI do Sigilo
Iniciático proibir, para que a Sabedoria Divina não viesse a ser
conspurcada por esses e outros que tais, a maioria na ocasião não
passando de "meninos de escola" e "curiosos de coisas fantásticas". A
verdade é que, mesmo assim, conspurcaram o pouco que ofereci,
demonstração cabal de que cresceram fisicamente mas ainda não
amadureceram consciencialmente. - Nota Vitor Manuel Adrião.
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R. - São as marcas indeléveis da presença de Lug, os lugares "Lug",
como os de Logroño e Lugo, no caminho de Santiago de Compostela e nos
trilhos iniciáticos da História Secreta da Península Ibez a Ibéria.
Raízes ancestrais impregnando de mistério a cidade da boa deusa Lusi e
do grande Lug, obreiro universal, demiurgo, mestre de artes e
alquimista, músico, guerreiro e mago, o pode- roso tutelar da Lusitânia
que os Lígures e os Celtas transportaram consigo na sua marcha para o
Sul, em direcção ao Grande Ocidente, pela rota da Via Láctea e da
Estrela do Cão, isto é, de Ísis e de Osíris ou estrela Sirius, nos
confins da Terra, "as finis-terrae".
P. - Existe algum significado simbólico no facto de Lisboa ser uma cidade com sete colinas?
R. - Lisboa, como todas as cidades de sete colinas a exemplo das quais
apontarei Jerusalém e Roma, dentre outras, é considerada pela Tradição
Teúrgica uma urbe sagrada.
Decifrando-se o seu próprio nome de Lisboa (Lis+Boa), teremos a
sacralidade do lugar des- velada. A Flor de Liz, símbolo de Iniciação e
Mistério, representa o Sol Tríplice ou Santíssima Trin- dade expressa
na figura Pontifícia e Imperial de Melki-Tsedek, o Prestes João, o
"Vicente, corvo- -humano" nos Painéis de Nuno
Gonçalves. O termo "Boa" além de designar a "água" designa também a
coluna salomónica Boz ou Bohaz, pilar de Deus sito aos pés do Tejo, no
Cais, portanto lugar representativo da cidade. Indicando a Beleza
Universal, nela está a Força e o Rigor com que termina o nome de
Lisboa, e nessa coluna a Lisboa cidade aos pés do Tejo finda.
P. - Há quem afirme que Lisboa foi fundada por Ulisses e sua contraparte Ulissipa...
R. - Ulisses e a sua contraparte Ulissipa são formas helénicas e
antropomórficas do "celtizados" Lug e Lusina, designando
astrolaticamente o Sol e a Lua. Na realidade, quer uns quer outros,
enco- brem realidades mais profundas remontando à própria Atlântida
quando Lisboa foi fundado pelo Príncipe Lissipo e a Princesa Lissipa,
filhos da Rainha Ulisi-Pa ou Ibez (donde derivaria o onomásti- co
hebreu Ibéria) e do Rei Mani-Pura, Curavia ou Curata, Senhor dos Nagas
ou "Seres Serpentári- os", Ofiússas, do Patala (aqui, o "Ocidente"),
segundo velhos textos do Oriente, Sacerdotes Inicia- dos de uma Ordem
de santos e Sábios ou "Homens-Serpentes", remontando daí a Tradição de
que Lisboa é a cidade da "Grande Serpente" (Kundalini), e as sete
colinas os "seus sete anéis". Também a tradição, lavrada em textos
velados, de que a Princesa Lissipa deixou cair ao Rio o seu anel com um
pentagrama esculpido com pedras preciosas e que depois foi encontrado
no buxo de um peixe acabado de pescar, é indicativo de que Portugal já
na Atlântida estava sob a égide do si- gno de Peixes e que Lisboa já
então se revelava pelo Feminino Iluminado, a Ofiússa ou Sibila, dando o
seu contributo a uma longínqua mas pressentida "5.ª Coisa" a fazer.
Enfim, para nós realidades inserta no que chamamos a História da Obra
Divina, mas para outros factos, se é que alguma vez os foram,
profundamente contestáveis, sem dúvida, e que as fábulas e contos
locais se encarregaram de encobrir sob o véu da fantasia e do fado que,
mesmo assim, chora a saudade.
O TERREIRO DO PAÇO É A LÂMPADA DE ALADINO
P. - Que simbologia pode conter a Praça do Comércio ou Terreiro do Paço?
R. - O Terreiro do Paço, na disposição linear do seu talhe, no
alinhamento das suas artérias, no ri- tmo geométrico da sua arcaria é a
lâmpada de Aladino (Allah-Jin, em persa) que franqueia a porta que
conduz à gruta subterrânea, onde jazem os maravilhosos tesouros
escondidos, até aqui, aos olhares profanos. A Praça dos Arcos é o átrio
que nos conduz ao Santuário das sete colinas, o Templo da Sabedoria.
P. - E o famoso Arco da Rua Augusta?
R. - O Arco da Rua Augusta tem profundo significado esotérico. Todas as
cidades alicerçadas sobre sete colinas possuem o seu Arco do Triunfo ou
da Salvação. O de Lisboa é a síntese sagrada e também estética dos
demais espalhados pela Europa e Médio-Oriente. Designa o Umbral dos
Mistérios, a passagem das trevas para a Luz, da morte para a
Imortalidade que a Sabedoria das Idades concede.
Neste Arco encontram-se as figuras de quatro personagens importantes de
nossa História: Viriato, chefe dos Lugsignan, os Lusitanos,
que deram o sentido da Nacionalidade nascente; Vasco da Gama, almirante
da Ordem de Cristo e que ligou a Ásia à Europa por Via Atlante, quer é
dizer, Marítima; Sebastião de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, que
coadjuvado por operativos maçónicos ingleses, franceses, húngaros e
portugueses, reconstruiu a velha Lisboa depois do terramoto de 1755 e
ordenou reformas sociais as quais abriram um novo ciclo na nossa
História; e o Santo Condestável Nuno Álvares Pereira (ligado à Casa de
Bragança que, por Lei de Causalidade, veio depois a governar o Brasil,
sendo o seu primeiro Governador Geral D. Tomé de Souza), o qual alguns
teimam em associar à figura do Infante D. Henrique, também este vulto
imponente na História Portuguesa que o torna deveras ímpar, indo a sua
influência directa desde as conquistas militares à abertura de novas
cadeiras universitárias, ao apoio às Ordens de Cavalaria e Religiosas,
até chegou ao ciclo das Descobertas marítimas que já se habitou chamar
de Período Henriquino, sob o signo do Prestes João, já indício da
vindoura Era do Aquário de abertura e expansão universal.
Ladeando essas quatro personagens estão as estátuas
alegóricas do Tejo e do Douro, pre- cisamente os divinos Génios de
Lisboa e do Porto, as cidades-gémeas expressivas das colunas sa-
lomónicas Bohaz e Jakin, precisamente expressadas nas cores negra e
branca patentes na bandeira da sempre nobre e leal cidade de Lisboa.
P. - Quem foram os autores dos dois grupos escultóricos dos quais nos acaba de decifrar o significado?
R. - O grupo escultórico de que acabamos de falar é da autoria de Vítor
Figueiredo de Bastos, en- quanto o grupo alegórico que encima o Arco
foi obra do pedreiro-livre e escultor francês Camels. Ele representa aí
Ibez ou Ibéria, aqui como Grande Mãe Universal, laureando, coroando
Apolo e Minerva, a Iluminação e o Entendimento. Ela é a Laureada, a
"Coroa dos Magos" da 22.ª lâmina do Tarot.
OS ARCOS DO TERREIRO REPRESENTAM OS ARCANOS DO TAROT
P. - Se existem analogias com o Tarot, no Arco, haverá mais representações simbólicas do Tarot ou Terreiro do Paço?
R. - O Livro de Thot, mais conhecido pelo nome de Tarot é, como se
sabe, constituído por 78 cartas ou lâminas, originalmente de ouro fino
ou crisopeico e prata argiopeica, pertencendo as pri- meiras 22 lâminas
aos Arcanos Maiores, ou Esotéricos, e as restantes 56 aos chamados
Arcanos Menores, ou Exotéricos. Existe uma intencionalidade na própria
arcaria do Terreiro do Paço ultra- passando, sem dúvida, a sua função
estrutural da sua arquitectura. Os edifícios laterais contêm 28 arcos
cada um, cuja soma total é de 56 arcos, ou Arcanos Menores.
Na fachada principal, entre as Ruas do Ouro e da
Prata, contamos, por outro lado, 22 arcos, 11 em cada direcção, a
partir da Rua Augusta. Ora 22 arcos correspondem, exactamente, ao
número dos 22 Arcanos Maiores ou Iniciáticos.
Se aplicarmos a cada arco o arcano que lhe
corresponde, possuímos a chave interpretativa de um ciclo completo de
manifestação: relativamente aos 56 arcos, a manifestação profana, e
quanto aos 22 arcos frontais, entre as Rua do Ouro e da Prata, a
realização oculta.
Sobre isso, cito agora um trecho, datado de
30.7.1951, de uma obra impublicável do Prof. Henrique José de Souza, O
Livro do Loto, e que tem a ver com tudo quanto vimos dizendo:
"Repare-se como o Arco da Rua Augusta se parece com o do Palácio da
Aclamação, na capital baia- na. VIRTUTIBUS MAIORUM (melhor dito,
MAJORUM), é o lema da Rua Augusta. De cada lado do re- ferido Arco da
Rua Augusta, figuram 11 portais. Ele é, portanto, o 23.º, como primeiro
Arcano Menor. A estátua do frontispício, na sua parte mais alta, coroa
um Homem e uma Mulher. Em baixo também se fala num DOCUMENTO P.P.D.,
que antes deveria ser L.P.D. Deve ser um lema latino referente a
PORTUGAL".
P. - Podemos considerar Lisboa como uma das cidades europeias mais ricas, sob o ponto de vista monumental?
R. - Lisboa é, de facto, a capital da Europa no contexto monumental,
não esquecendo a arte vitral, a azulejaria e a pintura. Os painéis de
Nuno Gonçalves quiçá sejam o maior exemplo, e certamente não estão
devidamente lidos e interpretados, pois este Políptico encerra a génese
e linhas gerais do desenvolvimento Lusitano e Ibérico no geral, muito
além da interpretação vulgar que tão mal se é uso e costume dar-se-lhe.
Por isso e por toda a beleza e grandiosidade
estética e esotérica de Lisboa, apelo às respe- ctivas autoridades para
que concedam uma maior protecção ao nosso maravilhoso património na-
cional, particularmente ao património lisboeta, afinal de conta, a
nossa Memória, a Memória do Povo Português. É sumamente doloroso, e só
arrancando lamentos d´alma, ver-se hoje tão maltra- tado o património
monumental da capital, vítima da poluição motora e da inconsciência de
partidá- rios políticos ou desportivos, servindo-se dos monumentos como
quadros para borrar os seus "slo- gans" e símbolos, sujando e
destruindo a nossa estatuária ímpar. A perder-se será algo irrecuperá-
vel pois com ela se perderá muito da nossa Alma Lusitana, ademais, os
Mestres Arquitectos e Canteiros há muito que se foram...
CAVALEIRO DA ESTÁTUA NÃO É D. JOSÉ I MAS S. JORGE
P. - No centro do Terreiro do Paço está a estátua que se diz ser de D.
José, da autoria de Machado de Castro, templário e escultor da escola
de Mafra. Será que também nela se manifesta um simbolismo oculto?
R. - Há que saber ver e ler, para além do simbolismo aparente, o
verdadeiro significado da esta- tuária deste aro esotérico da Baixa
Pombalina, tanto mais que todos os seus escultores houveram talhado o
seu carácter, saber e arte no escrínio iniciático de Confrarias
esotéricas, fossem (Neo) Templárias, fossem Maçónicas.
O cavaleiro da estátua, empunhando o ceptro imperial
mandatário e cobrindo-se com um manto, quiçá vermelho, semelhante aos
que usavam os cavaleiros da ordem de Cristo e cuja montada branca
esmaga as serpentes, sugere ser a própria imagem de S. Jorge, para a
Tradição, o Vigilante Silencioso da Pátria Lusitana, expressando na
Terra ao próprio e psicopompo S. Miguel, afinal, este o Metraton para
aquele o Sandalphon.
O anjo da trombeta, junto do elefante, e o anjo da
palma, junto dum cavalo, ambos esma- gando o homem velho e a
profanidade, designam as Tradições Iniciáticas Oriental-Ocidental
unidas, encontradas em Portugal, onde acaba a terra e o vasto mar
começa.
Atrás do cavaleiro, nas costas da estátua,
encontra-se esculpida a alegoria da aparição do Menino Coroado,
sob o apadrinhamento de sua Santa Mãe, sugerindo o futuro Reinado
do Espírito Santo, tese já perfilhada pelo abade cisterciense da
Calábria, Joaquim de Flora, no século XIII. A arca aberta de um tesouro
está aos pés do Menino, e um arquitecto mostra-lhe o plano da Nova
Lisboa. Ilustração semelhante a essa encontra-se numa tapeçaria no
Convento de Mafra. Por falar em Mafra, símile do Templo de Salomão, as
suas dimensões são exactamente as mesmas do Terreiro do Paço e onde se
encontra, naquele, o seu altar-mor, está neste precisamente a estátua
equestre de D. José I ou de S. Jorge, aqui nesta Praça dos Arcos ou
Arcanos. Terrível coincidência, mais por causalidade do que por
casualidade...
Mais uma vez, a sibilina profecia de Sintra faz eco: "Patente me farei
aos do Ocidente / Quando a Porta se abrir lá do Oriente / Será cousa
pasmosa quando o Indo / Quando o Ganges trocar, segundo vejo / Seus
(divinos) efeitos com o Tejo".
ARTÉRIAS DA BAIXA FORMAM O CADUCEU DE MERCÚRIO
P. - Para terminar, gostaríamos de voltar às três ruas da "Baixa". Qual o seu significado?
R. - Do Terreiro do Paço partem as principais artérias: Rua Augusta,
Rua do Ouro e Rua da Prata. Quando dizemos artérias aplicamos o termo
próprio, pois é de artérias que se trata. As Ruas do Ouro e da Prata,
com a Rua Augusta, representam o caduceu de Hermes, ou de Thot, e como
é sa- bido, o caduceu compõe-se duma coluna central em torno da qual
sobem duas serpentes, uma dourada e outra prateada, respectivamente uma
solar e outra lunar.
Estas serpentes representam e são as artérias pelas
quais flui a energia serpentina vital, desdobrada nos seus dois
aspectos complementares: o lunar que é frio e passivo, enquanto o solar
é quente e activo.
Na simbólica tradicional o ouro expressa o Sol e a
prata a Lua. Torna-se claro que a Rua do Ouro corresponde ao aspecto
solar do caduceu, a Rua da Prata ao lunar e que, finalmente, a Rua
Augusta simboliza o bastão central, canal de fusão e síntese destas
duas forças polares.
Através do caduceu pombalino temos acesso às sete
colinas ou selos da Boa Liz: S. Vicente, em Alfama; St.º André, na
Graça; S. Jorge, na Mouraria; S. Roque, no Bairro Alto; St.ª Catarina,
a partir do Camões; Santana, sobre o Largo da Anunciada, e Chagas, no
Carmo. Interpretar estes sete padroeiros é interpretar o enigma
críptico de Lisboa, que aqui não nos cabe fazer.
DESVENDANDO A SIMBOLOGIA OCULTA DE LISBOA
(CONCLUSÃO)
AS HISTÓRIAS QUE OS MONUMENTOS NOS CONTAM
(REPORTAGEM DE VICTOR MENDANHA IN "CORREIO DA MANHÃ, 17.6.1986)
Os monumentos de Lisboa, conforme referimos no nosso trabalho anterior,
contam histórias incríveis, algumas delas encobertas por narrativas
populares que chegaram até nós mais na forma de mitos e lendas, capazes
de serem "decifrados" por quem se debruçar, atentamente, sobre este
tema, nem sempre tarefa fácil mas deveras aliciante.
Prosseguimos, para terminar hoje, um passeio pela
capital na companhia de Vitor Adrião, um cabalista e teúrgico que a
certa altura nos garantiu, sem pestanejar sequer: "Dizem certas tra-
dições que a Taça do Santo Graal, a original, esteve na Sé de Lisboa, e
em custódia, depois do ano 985 da nossa Era, sendo o seu culto mantido
em segredo por uma misteriosa Ordem de Santos Sábios".
Muitas histórias, tanto ou mais curiosas do que esta
são aqui abordadas, em diálogo a que muitos poderão chamar de insólito,
outros de irreal e alguns de verdadeiro atropelo aos possíveis segredos
de várias organizações iniciáticas.
Mas o único objectivo que nos moveu foi o de
informar, fornecendo ao leitor as pistas entregues nas nossas mãos
precisamente para isso.
E entremos, sem mais demoras, no assunto que está a prender a vossa atenção.
DA CONCEIÇÃO VELHA AO CASTELO DE S. JORGE
P. - Aqui, na Rua da Alfândega, existe a igreja da Conceição Velha,
cujo pórtico é maravilhoso. Quais as figuras mais representativas do
monumento?
R. - Junto do Terreiro do Paço temos a igreja de Conceição a Velha, o
que nos remete à primitiva Concepção alquímica representada no Velho
Testamento por Binah, tanto que antes de D. Manuel I este templo fora a
sinagoga dos alfamitas ou residentes de Alfama. A sua fachada exterior,
um misto de Gótico e Manuelino, respira e transpira o Feminino
transcendente, o Marianismo, ou seja, expressa o aspecto matriarcal de
Lisboa Oriental, representado pelo "Braço de Prata", e também as várias
fases da Grande Obra Teúrgica/Alquímica, noutros termos, Ergon e
Paraergon. Sendo a leitura desta fachada longa e exaustiva, apontarei
somente uma personagem, a da coluna central, suporte de todo o eixo
escultórico, vestida de varina mas portando a espada e a balança: é a
antropomorfização da própria Lisboa. A Bela Luz de Vénus que influi na
nossa cidade sob a égide do signo zodiacal da Balança, profundamente
ligada às origens histórica e teúrgica do Homem e da Cidade.
Penso mesmo que os motivos ornamentais do Arco da
Rua Augusta acaso ter-se-ão inspira- do nas figuras herméticas desta
fachada e do seu complemento no extremo oposto da cidade, na rota da
"Costa do Sol": a fachada de Santa Maria, no Ocidente do Mosteiro de
Belém, a entrada principal que se ficou devendo ao cinzel do
mestre-canteiro francês Nicolau de Chanterene, reinan- do D. Manuel I.
Aliás, a imagem da Senhora da Estrela (donde, por corruptela,
"Restelo") ou dos Reis Magos, uma Virgem Negra, da devoção extremada do
Infante Henrique de Sagres, foi trasla- dada da capela do Restelo para
Conceição a Velha, em procissão triunfal, pelos freires da Ordem de
Cristo, ainda durante o reinado do supradito rei "Venturoso"...
P. - Daqui, de onde estamos, vê-se o castelo de S. Jorge. O que nos pode dizer sobre essa construção?
R. - Pegando na geografia sagrada da cidade e transpondo-a, por
analogia, à anatomia humana, teremos o castelo de S. Jorge como o
Mental regente de Lisboa. Durante largos séculos, aí estive- ram os
paços reais. Foi aí que Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e Cristovão
Colombo, nome guemátrico em que se encobria o português Salvador
Gonçalves Zarco, por exemplo, receberam a aprovação da Corte para a
demanda de novos mundos para o Mundo Luso.
Sobre o castelo cintila o planeta Júpiter e sendo
Júpiter, na Mitologia, o Pai dos Deuses, Deus ou Zeus, não é de admirar
que a Península Ibérica esteja sob a égide do signo do Sagitário, este
que expressa o Fogo Volátil purificador, o Pater Aether, que se torna
Líquido ou purificado, na concepção alquímica, o que é personificado
pelo Tejo deslizando manso e dolente às muralhas desta fortaleza.
E são exactamente os Peixes zodiacais do planetário
deus Neptuno que regem Portugal, o Portugal da Divina Mãe, Marum, Mare,
Maris, Mariz... o Portugal das sempieternas Águas renova- doras,
purificadoras e purificadas, verdadeiro Fogo Líquido que se esparge
lustralmente como Luz das Nações, dos Ciclos do Mundo, e que se centra
em Lisboa, esta a pretendida Capital do V Impé- rio do Espírito Santo,
aportando à memórias as profecias e lances vaticinadores do Padre
António Vieira, de Gonçalo Anes o Bandarra, de Fernando Pessoa, de
Guerra Junqueiro e mesmo de Camões quando cita em "Os Lusíadas", no
canto sétimo: "Via estar todo o Céu determinado / De fazer de Lisboa
nova Roma / Não o podendo estorvar que destinado / Está de outro Poder
que tudo doma".
O SANTO GRAAL TERIA ESTADO NA SÉ DE LISBOA
P. - A Sé de Lisboa é alfobre de histórias incríveis. Edificada em três
fases distintas, incluindo o páleo-cristão, o românico e o gótico,
consideram-na um dos mais enigmáticos edifícios sacros da cidade. Tem a
mesma opinião?
R. - A Sé Patriarcal de Lisboa, mandada edificar como templo cristão
pelo rei D. Afonso I de Portu- gal, já teve no seu interior, e segundo
certas tradições muito reservadas, a Taça do Santo Graal, a original.
Ela esteve aí em custódia durante cerca de quatro séculos e o seu culto
foi mantido em segredo por uma misteriosa Ordem de Santos Sábios, à
qual as Ordens de Avis e do Templo deram cobertura exterior. Isto
aconteceu depois do ano 985 da nossa Era.
Diz-se mesmo existir uma ligação subterrânea entre a
Sé, o Castelo e o Convento do Carmo e que uma maldição fatal cairá
sobre o profano e curioso que ousar afrontar esses misterio- sos
trilhos. Mais não posso dizer.
Na Sé encontram-se, desde o século XII, as santas
relíquias do mártir S. Vicente, um dos padroeiros de Lisboa. No brasão
da cidade figura a Nau, Barca ou Arca que transportou os restos mortais
do santo e que acabou por aportar à costa dos Algarves, mais
precisamente ao Promontó- rio Sacro, a ponta de Sagres. Na barca, como
elementos heráldicos, também figuram dois corvos, os quais e segundo a
tradição, acompanharam, como fiéis e atentos guardiões, os despojos do
mártir na sua estranha odisseia até esta Sé Metropolitana de Santa
Maria Maior, depois convertida Patriarcal. O corvo, ave saturnina mas
também solar, assimilando-se ao cisne negro e ao ganso negro, é o totem
de Lisboa, o detentor da Sabedoria Divina e da Profecia "que perscruta
o Passado e desvenda o Futuro".
P. - Chegados que somos ao Rossio, neste passeio pela arquitectura
esotérica de Lisboa, depara- mos com a coluna dedicada a D. Pedro IV.
Como interpretar as figuras esculpidas?
R. - No topo desta coluna monumental avistamos D. Pedro IV que segura,
com a mão direita, a Carta Constitucional de 29 de Maio de 1826. Esta
obra foi adjudicada ao escultor Elias Robert e ao arquitecto Gabriel
Davioud, ambos de nacionalidade francesa. Assemelha-se o monumento a um
falo desflorado, a um "linga" hindu ou "mundus" latino, e tem, no sopé,
os Quatro Anjos do Destino de quanto vive e se desenvolve no Globo,
esses "Fantasmas Cósmicos" de Forças Maiores, por isso mesmo "Jinetes
Anímicos", estando demarcando estrategicamente, a partir do "mundus"
central", o espaço da "Lisboa quadrada", correspondendo a cada ângulo
um símbolo e naipe do Tarot, o que aliás cada um deles ostenta. Se uns
lhes dão o nome de Mikael, Gabriel, Rafael e Auriel, então o quinto,
representado pelo monarca no topo, futuro Imperador do Brasil, a "Nova
Lusitânia" de Pedro de Mariz, acaso também será ele representação régia
do 5.º Senhor em formação desse mesmo V Império do Mundo que se está
formando.
Um pouco acima estão as Tágides, os "espíritos
naturais" do Tejo, as quais formam um cordão protector ou cadeia de
união. É realmente, um monumento muito belo portador de um arcaico e
transcendente simbolismo que nos reporta, mesmo, às batalhas celestes
entre Mikael Solus e Samael Petrus, as quais se terão reflectido, em
nossa História, nas lutas sangrentas entre os absolutistas de D. Miguel
I e os liberais de D. Pedro IV. Estes acabaram vencendo e se assenho-
reando da Terra Lusa.
ESTAÇÃO DO ROSSIO ONDE SE PASSA MAS NÃO SE OLHA
P. - A frontaria da gare da estação do Rossio, terminal ferroviário que
liga Lisboa a Sintra, está arquitecturada em gótico neoclássico. Qual o
seu valor simbólico?
R. - Como o seu nome indica o gótico (da raiz gálica God, "Deus") é um
estilo que assinala a Asce- se, a contemplação do Divino. Esta é a mais
pura, sensível e estética expressão da arte arquitectó- nica de fixar
na pedra antes bruta a polidez da Harmonia Universal, o que expressa o
Gótico puro, que é flamejante, estilo cuja apoteose vai dos finais do
século XIII aos finais do século XV.
Na fachada da estação terminal do Rossio vêem-se duas arcadas
cruzando-se à altura do nicho contendo a estátua de D. Sebastião, em
tamanho natural, em atitude de defesa, a espada adiante do escudo
inclinado 17 graus para a esquerda do possuidor. Seguindo um certo
sentido, as arcadas sugerem as ferraduras do cavalo branco do Encoberto
que não é o jovem sonhador de de- lírios funestos el-rei D. Sebastião,
mas antes este o emblemático régio de um outro Rei muito mai- or que
há-de vir, quiçá o próprio retorno do Cristo em Aquarius? Sebastião em
hebraico é Sbhs ou "Serpente", é o Grande Dragão da Sabedoria, e não
foi por acaso que foi o santo mais querido dos Templários, assim como
Santo André o Arquitecto, um outro dos padroeiros de Lisboa.
Repito: o jovem rei do mesmo nome apenas simbolizou
algo muito mais elevado. Que se acabe de vez com a confusão que a
temática sebastianista, não raro levada ao rubro de certas po- líticas
reaccionárias, tem provocado. Já o Miguel de Nostradamus, profeta
visionário e hermetista, leva-me a lembrar a sua centúria 32 aquando
fito a estátua do Encoberto, dentro do nicho: "O grande império em
breve terá mudado / Em primeiro Lugar, que cedo crescerá / Lugar bem
ínfimo dum exíguo Condado / Em cujo meio seu ceptro pousará". Ou mesmo
a estrofe 70 das trovas de Gonçalo Anes, o Bandarra: "Portugal tem
bandeira / Com cinco quinas no meio / E segundo vejo e creio / Esta é a
cabeceira / E fora sua cimeira / Que em Calvário lhe foi dada / E será
Rei da mana- da / Que vem de longa carreira".
OS RESTAURADORES COM PROMETEU LIBERTO
P. - Outro monumento, por sinal bem perto deste, que possui figuras
escultóricas sobre o significa- do das quais poucos se debruçam apesar
de passarem, muitas vezes, por perto é o Obelisco dos Restauradores.
Poderá desvendar o significado destas figuras?
R. - O Obelisco dos Restauradores, situado na praça do mesmo nome, por
sinal com 33 metros de altura, é decorado com dois anjos ongénios,
sendo o masculino da autoria de Alberto Nunes e o fe- minino realizado
por Simões de Almeida, enquanto o obelisco se deve a António Tomás da
Fonseca e foi erigido em 1886 por subscrição nacional, promovida pela
comissão central do 1.º de Dezembro.
O anjo masculino representa Prometeu Liberto, por
seu Irmão Epimeteu ou Mercúrio; é Luzbel com os grilhões partidos,
assim se assumindo na condição espiritual de Arabel e erguendo alto a
Lança da Vitória, da Vitória da Libertação do Cáucaso ou "cárcere
carnal", representada ob- jectivamente na restauração da Independência
Nacional do jugo Filipino, e tudo junto a Vitória dos Deuses que
restauraram os valores ancestrais de Lisboa e do Mundo. O escudo
triangular a seus pés ostenta o trigo e a vide, logo, em referência em
referência à Santa Eucaristia do Rito de Melki- -Tsedek, este se
assume, em linguagem teosófica ou iniciática, como o actual "Planetário
da Ronda", o Quinto dos Sete "Melki-Tsedek", que é sobretudo uma função
hierárquica directora su- prema dos destinos da Terra e de quanto nela
vive e evolui.
O anjo feminino representa a contraparte do Senhor
da Luz Restauradora, a Rainha do Mundo, Io, Ísis ou Algol, com outros
nomes ainda, podendo-se corporificá-la também como a "Lusitânia
Triunfante", a Entidade que coroa e abençoa Lisboa, Portugal e o
Mundo com a Palma da Vitória. Na destra ela segura o laurel da mesma
Vitória Nacional e Espiritual, a décima 13.ª grinalda expressiva de "A
Grande Mãe", estando as restantes predispostas em grupos de três nos
pontos cardeais do monumento.
As Armas nos lados deste assinalam as forças
temporais da guerra e da morte derrotadas pelos poderes intemporais da
razão e do espírito, estabilizados no pólo de atracção energética que é
o Obelisco.
P. - mas Lisboa possui mais monumentos cuja descoberta do seu simbolismo esotérico muito daria que falar...
R. - Muito fica por dizer, de facto. Poder-se-ia falar, por exemplo, de
quanto há de esotérico no antigo restaurante "Abadia" nas caves do
Palácio Foz, nos Restauradores; da estátua portentosa do Marquês de
Pombal, na rotunda que lhe leva o nome, cujo gradeamento em volta da
mesma replete-se de alegorias maçónicas todas assentes sob o ceptro e o
báculo, símbolos do Poder Temporal e da Autoridade Espiritual, e todo o
monumento assente sobre a Barca de Portugal; do Convento do Carmo ou
dos Carmelitas, descendentes daqueles cristãos primitivos, integrados
aos Essénios, do Monte Carmelo, para as bandas da Palestina; da
Basílica da Estrela, "símile" do Ter- ceiro Logos, o Homem Cósmico
Adam-Kadmon que na Terra é Adam-Heve; do Mosteiro dos Jeróni- mos e da
Capela do Restelo, assim como da Custódia de Belém e da Virgem Negra
Orago desses dois últimos templos. E mais, muito mais ficando por dizer
e assinalar, a memória falha ante a far- tura da Lisboa Artística e
Monumental, nisto, repito, já hoje Capital da Europa.
Lisboa, debruçada sobre o Tejo, abriu as portas do
grande Ocidente; o Oceano alargou as fronteiras de Portugal conferindo
os limites de suas épicas demandas missionárias, sob a égide do Santo
Graal e da Boa Liz, Mátria de Lusina, aliás, a Senhora da Luz.
Vindas do Oriente as Ordens Secretas, guerreiras e
templárias, passaram de Malta a França e à Espanha, e desta a Portugal,
o Porto do Graal ou do Sangue Real de todos os Missionários
sacrificados em prol da Pax Universal, no qual encontraram as condições
propícias para divulgar e dirigir a sua Mensagem iluminadora ao
Ocidente Eterno, integrando-o no caminho do Novo Ciclo.
A Obra ciclópica das Ordens Jinas, logo
verdadeiramente Iniciáticas, continuou e continua a conduzir Portugal e
o seu Mental regente, Lisboa, ao seu alto e promissor destino, embora
hoje se tenha perdido por egolatria a consciência disso. É Portugal o
Gigante adormecido que se faz mister despertar para a realização plena
da Grande Obra Teúrgica, logo, Universal.
Quem, despido de preconceitos, recuar no decurso da
nossa História e acompanhar "por dentro" os grandes lances
fundamentais da formação e evolução da nossa Nacionalidade, há-de
convir a existência de uma predestinação imanente que nos protege de
males maiores, a ponto de, cantando ou rezando, conclamarmos que Deus é
Português... à luz da Teurgia.
JARDIM ZOOLÓGICO DE LISBOA
A IMITAÇÃO DO PARAÍSO BÍBLICO
(REPORTAGEM DE FERNANDO DACOSTA IN MAGAZINE DO "PÚBLICO", N. 157 7/3/1993)
Os que, há mais de um século, decidiram construir um
jardim zoológico em Lisboa, não quiseram construir apenas um jardim
zoológico, isto é, uma reserva de animais exóticos ou bravios;
ambicionaram mais, edificar um espaço que sintetizasse o Paraíso da
Bíblia e o Éden pagão. Erguido na Quinta das Laranjeiras em 1905,
depois de ter estado em Palhavã, tornou-se desde então um dos mais
belos e estranhos zoos de que há referência.
Pessoas excepcionais na época, os seus promotores -
caso do rei D. Fernando II, do escritor Camilo Castelo Branco, dos
médicos Van der Laan e Sousa Martins (alvo, hoje, de invulgar culto
religioso), do barão Hessler, de Carvalho Monteiro e dos condes Farrobo
e Burnay - atribuíram-lhe um significado simbólico marcante.
A sua matriz teria, assim, sido inspirada no Jardim
das Delícias, nos Paraísos bíblico, hindu e caldeu, onde os quatro
reinos da Natureza, mineral, vegetal, animal e humano, se religam, se
harmonizam.
O mineral está representado pelas águas e granitos
da zona, o vegetal pela variedade da flora, o animal pelas espécies
zoológicas conseguidas, e o humano pelos visitantes, sobretudo
crianças, que o procuram em número crescente.
Segundo alguns estudiosos, como o dr. Vitor Manuel
Adrião, que o investigou durante anos e sobre ele preparou o livro
"Regaleira de Sintra", em lançamento, a singularidade que apresenta
deve-se ao facto de "todos os que estiveram na sua génese terem sido
iniciados e membros de Ordens Secretas, Maçonaria (conde de Farrobo),
Rosa Cruz (D. Fernando II), Ala do Templo (António Carvalho Monteiro)".
Para eles, um jardim zoológico devia ser um lugar de
reencontro com o mistério, com a espiritualidade. Os arquitectos
chamados imprimir-lhe-ão esses signos e sinais, a que o Romantismo,
emergente na altura, dará, em termos públicos, bom acolhimento.
Investigações recentes permitiram apreender os
significados contidos nas estátuas, nas colunas, nas pontes, nas
fontes, dispostas de acordo com as fases das viagens do Conhecimento.
A chave para a sua decifração encontra-se no
Roseiral, espaço delimitado por sebes e pavilhões, onde se entra por
uma lindíssima e minúscula ponte de pedra, símbolo da passagem para o
Superior, para o Perfeito. Obra de extremo bom gosto, semelhante aos
tabuleiros suspensos do Nilo, está delimitada por quatro colunas,
ostentando cada uma um artífice egípcio, guardião das quatro direcções
envolventes.
O Roseiral parece o jardim de um templo aberto, com
as suas fontes, recantos, labirintos, vértices, esferas, grinaldas
graníticas, com as suas esfinges andróginas (rostos de homem e seios de
mulher), os seus dragões assírios, os seus gansos, os seus delfins, as
suas figuras mitológicas. Lugar da rosa, constitui a síntese final de
todo o zoo.
Este encontrava-se sobranceiro a uma zona de sete
rios que desembocavam no rio de São Domingos, do qual saíam quatro
riachos que percorriam o vale das Laranjeiras. "Tal como o Paraíso
terrestre, que era banhado por um rio dividido (palavras de Manuel
Adrião) em quatro braços: Pison, Gion, Tigre e Eufrates."
Quatro séculos atrás, D. João de Castro surpreendia
o país e a Europa ao falar no projecto de um jardim zoológico onde se
concentrassem as espantosas diversidades de animais e plantas que os
portugueses, nas suas viagens, haviam descoberto pelo mundo. O clima
ameno e o património de conhecimentos que detínhamos sobre as raças dos
bichos e as maneiras de com eles lidar, tornava-o à partida viável.
A herdade da Penha Verde, que possuía em Sintra,
podia, afirmava, ser um bom local para o projecto. O antigo vice-rei
das Índias não foi, porém, levado muito a sério. Mas o fascínio pela
fauna das paragens longínquas tomar-nos-ia, desde então, para sempre.
Os grandes do reino passaram a ter exemplares dela
nas suas quintas, seres de maravilha e espanto, a impressionarem
fortemente os estrangeiros que as visitavam. Plantas e animais raros
venciam oceanos e reproduziam-se em jardins aristocráticos,
climatizados para o efeito. Metrópole de impérios africanos,
sul-americanos, asiáticos, Portugal fazia-se referência decisiva.
Dominando a cultura, as artes, a ciência, a
economia, notáveis ligados ao rei D. Fernando II marcam a vida criativa
de então. Lugares especiais são-lhes objecto (Sintra com o Palácio da
Pena e Sete Rios com a Quinta das Laranjeiras) de realizações
surpreendentes.
Pela sua localização, pelo seu microclima, pelas
suas águas ("águas boas" as designaram no tempo das pestes), pela sua
arquitectura, pelos seus edifícios, pelos seus bosques, a herdade de
Sete Rios apresentava-se desde logo como o espaço ideal para um jardim
zoológico.
Comprada aos franciscanos pelo conde de Farrobo, que
lhe construiu um palácio e um teatro, o Tália, tornou-se um centro
cultural de invulgar prestígio. Com capacidade para 560 especta- dores,
o teatro (actualmente entregue ao Ministério da Juventude) foi o
primeiro edifício a ser, entre nós, iluminado a gás, Nele
representaram-se óperas, peças e bailados famosos, com a presença
frequente da corte.
Dificuldades surgidas levaram, no entanto, a que o
primeiro zoo fosse instalado em Palhavã, nos terrenos onde se encontra
hoje a Fundação Gulbenkian. Aí esteve desde 1883 até 1904, altura em
que o Governo alugou o Parque das Laranjeiras (em 1940 expropriou-o) e
para lá o transferiu, dando-lhe a envolvência ambicionada.
As obras de adaptação, como as realizadas nos finais
dos anos 20 por Raul Lino, não lhe feriram o equilíbrio nem lhe
desvirtuaram a estrutura. A sua excepcionalidade tem sido, com efeito,
preservada sobre as carências, os revezes sofridos. O maior dá-se
quando, a seguir ao 25 de Abril, se instala a ideia de que ele é uma
obra da burguesia, parasitária e contra-revolucionária. Chega a ser
proposta a sua destruição e o abate dos animais e das árvores.
"Hoje atravessa uma fase de expansão. Os bichos
estão felizes", especifica Manuel Adrião. "Os tratadores são
excepcionalmente dedicados. Júlio Isidro deu-lhe, através da televisão,
um apoio decisivo. Empresas privadas ajudam-no, o número de visitantes
aumenta. É fundamental que todos tenhamos consciência do seu valor."
Do lado de lá dos muros fica o caos de uma Lisboa
desespiritualizada, dessacralizada, com ruídos, trânsitos, edifícios
(um deles, o da antiga escola da PIDE), poluições, a cercá-lo.
A cortina do tempo que separa os dois mundos faz-se
frágil, frágil como o olhar dos bichos cativos, a transparência das
águas, a reverberação das plantas, os risos das crianças, como o sonho
dos que criaram esta obra singularíssima da nossa utopia, do nosso
engenho, do nosso domínio dos outros - os animais, no caso presente.
LISBOA DO QUINTO IMPÉRIO
(REPORTAGEM DE MANUELA GONZAGA IN REVISTA 3 DE "O INDEPENDENTE", 8 a 14.10.1999)
Quando a terra tremeu, o mar e o fogo correram sobre
as ruas antigas, a devorar casas e palácios, igrejas e albergues,
lojas, teatros, fortalezas, campanários e pórticos, até o chão ficar
ensopado de cinzas e lama, e corpos aos milhares, para que uma cidade
nova crescesse sobre estes escombros, clara e apolínea, racional e
ampla.
Mas a Lisboa pombalina, pós-terramoto, traçada a
régua, esquadro e compasso, é, também, herdeira de António Vieira, de
Bandarra e de Camões, assumindo-se capital do Quinto Império que Pessoa
escavava, depois, nos arcanos da Astrologia e da Gnose. O Marquês impôs
as regras. Mas os códigos são muito mais antigos, e esse património
abrange todo outro Saber.
Página a página, na pedra das estátuas, no traçado e
na orientação do eixo que define ruas e avenidas, ainda hoje é possível
encontrar, na repetição do símbolo, na linguagem cifrada de números e
formas, a ossatura do sistema, a ordem latente onde assenta o Mito.
Viajámos pela Lisboa do Quinto Império na companhia
de um historiador que escreve sobre estes temas. É um homem pálido, de
fato e gravata, cabelo comprido e olhos encovadíssimos, autor e
apaixonado do mistério que circunda a "cidade mais bonita do mundo". E
é ele, Vitor Manuel Adrião, quem estabelece o percurso:
"Vamos ao Rossio e aos Restauradores, aí faremos a
leitura ícone-simbólica, no que me for possível, de algumas estátuas e
do obelisco. Vamos ao extinto restaurante "Abadia", nas caves do
Palácio Foz. Vamos espreitar as entradas para os subterrâneos de
Lisboa, segredo de Estado nas mãos do Exército. E às Ruas do Ouro, da
Prata e Augusta. Ao Terreiro do Paço, concebido de acordo com a
numerologia das lâminas do Tarot. Vamos ler e tentar decifrar um pouco
da iconologia patente no pórtico da igreja da Conceição-a-Velha e
visitar a de S. Roque, no Bairro Alto. Vamos tentar ver a lápide do
alquimista, num túmulo no Convento do Carmo."
Estava um calor magnífico. Passámos por entre
turistas e remámos contra a maré de gente apressada. E parámos junto à
Gare Central do Rossio, neogótica, de sabor manuelino. Entre as duas
portas, em forma de ferradura, ali está ele, o Desejado, em estátua de
pedra de dimensões naturais, com a mão segurando a espada, com a
sinistra pousada no terceiro castelo do escudo e a ponta da lâmina
apontando o quinto:
"Indica a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade que
há-de governar o Quinto "Castelo" ou Império, o dos Lusitanos. Este
monarca controverso e delirante, no final de contas, é apenas a
representação do Filho, a figura ou expressão régia do Encoberto,
daquele que há-de vir, um símbolo de Humanidade Perfeita de uma Nova
Era. Quando o Padre António Vieira evocava o Rei-Encoberto, o
Rei-Desejado, não se referia tanto a D. Sebastião concretamente mas ao
Arquétipo deste Reino. Ainda relacionado a este escultório, correm à
"boca pequena" as vozes de certas tradições pretendendo que a espada
aponta para um ponto específico, a alguns quilómetros abaixo do chão,
onde existirá uma estrada subterrânea que liga a Sintra."
Vitor Adrião discorre sobre símbolos e temas,
apontando pormenores: as vides, que remetem para Dioniso, o deus do
vinho, da exaltação, forma apaixonada do conhecimento, que tem a sua
representação em Shiva no panteão oriental. Deuses da Sabedoria Oculta.
Omnipresente, o cordão de marear, ex-líbris do Manuelino, consagração
deste povo de navegadores que tinham por timoneiro o Infante Henrique
de Sagres, Grão-Mestre da Ordem do Templo, dita de Cristo, cujas cruzes
estavam inscritas nas velas das naus que buscaram e deram novos mundos
ao mundo. É a outra História, a das lendas e mitos, depurada do sangue
e da cobiça, do aqui-e-agora, mas não menos real por menos evidente.
Estátuas e obeliscos, cavalos. Baixos-relevos que
contam histórias. Praças de dimensões justas. Ruas que formam um
traçado geométrico. No dia glorioso, o sol ainda queima. À direita, ao
alto, as ruínas magníficas do Carmo. Em frente, a Rua Augusta, que
desemboca no Cais das Colunas. Nuvens cerradas de pombos pousam ou
levantam voo das praças.
"A estátua de D. Pedro no Rossio equivale ao
`mundus´, o ponto axial, centro para onde convergem todas as direcções
da cidade e - porque não? - do País, já que Lisboa dele é capital. Aqui
temos o monarca imperial de Portugal e do Brasil, apadrinhado pelos
Guardiões das quatro direcções do Mundo, assinaladas nos quatro naipes
do Tarot: paus, espadas, ouros e copas. No Cristianismo, são conhecidos
como Rafael, Mikael, Ariel e Gabriel", explica Vitor Adrião.
E rodeando a estátua, vai indicando, naipe a naipe,
Guardião por Guardião. Taças, ou copas, apontando para a Rua de Santo
Antão, o "Anacoreta do Deserto", "a qual inclina 17 graus para a
direita".
Ouros aponta para a Gare Central do Rossio, "o
Caminho Alquímico, o Ouro Vivo, a Pedra Filosofal, onde está a estátua
do Encoberto, aquele que cavalga o cavalo branco, o Avatara, o Cristo
de Aquarius, o Senhor do Quinto Império".
Paus, ou báculo, aponta em direcção ao "Carmo, o
lugar donde se propagou oficialmente o culto matriarcal à Mãe Divina, o
convento onde morreu e repousou o féretro de Frei Nuno de Santa Maria,
antes o Condestável D. Nuno Álvares Pereira, que às armas juntou a
devoção e assim se tornou Santo (os seus restos mortais repousam hoje
na igreja a si consagrada, em Campo de Ourique). Convento, ainda, que a
tradição mais velada afirma habitada ao tempo por adeptos herméticos
senhores das mutações alquímicas, e aí ainda se pode ver, num dos lados
do túmulo de D. Fernando, a ilustração escultória dum alquimista
operando no seu laboratório debaixo da terra, sob o convento, a que se
desce por uma escadaria longa."
Finalmente, espadas. "A Espada da Lei e da Virtude,
a que premeia e salva, a que protege ou castiga, que aponta em direcção
à Sé Patriarcal de Lisboa, a quinta Catedral Graalística do Ocidente,
por onde depois do ano 985 da nossa Era a Taça do Santo Graal passou e
ficou até finais do século XV", diz ele.
E insiste: "Para onde olha D. Pedro, o Imperador do
Brasil? Em direcção ao Cais das Colunas, onde, diz a Tradição, cantada,
glosada e prosada por Fernando Pessoa, para não falar de Sampaio Bruno,
António Sérgio e outros, haverá de desembarcar, alegoricamente falando,
o Enco- berto. O Salvador das Nações. Para essa concretização todos
terão de dar o seu contributo mental e moral da melhor maneira que
souberem fazer, em prol da edificação de uma Sociedade Humana mais
justa e perfeita. Nisto bem se enquadra a Profecia de Sintra: `Quem
nasce em Portugal é por missão ou castigo´. Seja por missão."
CONVENTO DO CARMO
Portugal, país sob o biorritmo do valor 17, o Arcano
da "Estrela dos Magos", astrologicamente regido por Peixes e Júpiter
(enquanto Lisboa a é por Balança e Vénus), que por sua vez tem na água
o seu símbolo supremo. É essa que encontramos no cruzamento da Rua de
S. Nicolau com a Rua Augusta, na esquina configurando o Nascimento,
assinalado em Nicolau (o bem conhecido Pai Natal), para a Luz Augusta,
indicadora do Androginismo Perfeito ou da Perfeição Humana.
Na quadrícula da Baixa, sete ruas longitudinais
cruzam-se com sete ruas transversais, intersectadas por três praças:
assim se encontra, de novo, 17, o número da "Estrela dos Magos". E os
nomes das ruas remetem para a terminologia alquímica - Rua do Ouro, Rua
da Prata - que tem o seu desfecho na arquitectura da Praça dos Arcos.
Sob o Arco do Triunfo por onde se desemboca no
Terreiro do Paço, a Cruz de Santo André, com a Rosácea ao centro. Uma
porta gradeada, sob um dos arcos, dá para a entrada dos subterrâneos. E
aqui estamos, turistas na nossa própria cidade, deambulando neste
espaço magnífico... Alguém toca flauta. Alguém ri. Muita gente fala, a
toada que persiste é uma mistura de línguas.
"A Praça da grande Obra, Malkuth, o `Reino´,
sintetiza toda a tradição mítico-sagrada de Lisboa. Os arcos frontais:
os 22 Arcanos Maiores, e os restantes são os 56 Arcanos Menores. É o
`Livro de Thot´, o Tarot egípcio. A passagem pelos claustros da arcaria
chama-se `Os Passos Per- didos´. Perdidos para o profano, achados para
o Iniciado que chega ao fim adquirindo o Conhecimento", explica o nosso
guia.
No centro do Terreiro do Paço, a estátua deste cavaleiro D. José I,
obra de Machado de Castro, vestido à romana, com a capa curta da Ordem
de Cristo, não será antes - ou também - São Jorge de Portugal, o
vencedor de dragões, esmagador de serpentes, de Tarascas em que salva
donzelas virgens e inocentes, aqui as `flores da maternidade´ de uma
Nova Era? As deusas atlantes, fundadoras da cidade - primeiro Ofiússa,
mais tarde Ulissibona e Lissabona. Símbolos, símbolos. O Leão. O quinto
signo do Zodíaco, o sinal do Quinto Império. O esquadro e o compasso,
insígnias da Grande Obra, assinatura maçónica. Os tesouros escondidos,
para descobrir.
A mó ligada a São Vicente, Orago da cidade, que tem
dois corvos no seu brasão. Aves proféticas, uma sabe do Passado, a
outra sabe do Futuro. Lisboa velha, velha, ligada por subterrâneos que
comunicam, o Castelo com a Sé, a Sé com o Convento do Carmo. Vias
ocultas, atravessando toda esta quadrícula, cujas portas, discretas,
entaipadas, divisamos. Ou as lajes, de argolas, como nas histórias dos
tesouros.
Lisboa dos 12 bairros - o Universo por inteiro, com
as 12 moradas do Zodíaco - e das sete colinas (em Astrologia os sete
planetas que regem os signos), reconstruída por um húngaro, Carlos
Mardel, o homem escolhido por Pombal, que chefiou toda a equipa de
arquitectos que ergueu a cidade dos escombros do terramoto de 1755.
De modo que os pormenores das figuras da Praça do
Comércio têm a ver com "a `Casa dos 24´e com a Maçonaria Operativa,
essa a Maçonaria Primitiva ou Arte Real. O 22.º Arcano está ao centro,
com Apolo e Minerva, coroados pelo Triunfo, este o de todas as imagens
que preenchem o Arco: Ulisses, o Tejo e o Douro, Viriato, Nun´Álvares,
Vasco da Gama e o Marquês de Pombal."
Ainda há o pórtico da igreja da Conceição-a-Velha.
Ainda falta a Abadia. É preciso ir a São Roque. E há que não esquecer
os corvos. E os subterrâneos, aonde já não é possível ir, sob esta
praça assente sobre estacas, por onde a maré reflui. Os comerciantes da
Praça da Figueira queixam-se muitas vezes da água salgada que lhes
inunda as caves nas marés vivas.
Mas que Quinto Império é esse, afinal? É o Reino de
Bandarra, de Pessoa, de Vieira. O do Terceiro Milénio. O Império do
Espírito Santo, entrevisto por Joaquim de Flora, no limiar da heresia,
acolhido por Diniz e Isabel, dita "a Rainha Santa", que instituiu as
festas em que se coroa o Imperador-Menino, vai para oito séculos,
revivido em Alenquer, em Tomar, em Sintra, nos Açores, no Brasil.
Porquê "Quinto", e para mais "Império"? Histórias
tão antigas. O sonho de um rei, Nabucodonosor, interpretado por um
profeta, Daniel, registado num livro do Antigo Testamento. Uma estátua.
Cabeça de ouro, peito e braços de prata, ancas de bronze, as pernas
metade de ferro, metade de barro, e logo destruídas por uma pedra que
se transformou numa montanha. A cada um dos metais corresponde um
Império. A pedra que os destrói é o último, o Quinto, a irromper no
Extremo Ocidente, o Reinado que, na inversão dos metais, corresponde à
Idade do Ouro, à vinda do Desejado, a Parúsia universal, para instituir
o Reino do Pai e do Filho incarnados no Espírito Santo.
E é este sonho, não delirante mas mágico, que tem
polarizado há séculos pensadores, poetas, nautas, filósofos, sapateiros
profetas, num ideal que une seres tão díspares como um quase santo,
António Vieira, e um déspota iluminado, Sebastião José de Carvalho e
Melo.
Diante do portal de uma igreja esquecida, Vitor
Adrião conta: "Era aqui a sinagoga de Lisboa, depois consagrada
Conceição-a-Velha, a Virgem Negra do Restelo trazida em procissão so-
lene, há séculos reinando D. Manuel I, da Ermida do Infante Henrique de
Sagres. Os antigos sabiam que Lisboa está sob a égide Vénus, a Boa Mãe,
a Senhora das Águas, a Lusina, a Venusina, a Varina."
E ali está ela, Vénus de espada e balança, com
roupas de varina lisboeta, na coluna central de Santa Maria no pórtico
frontal, e o único, deste templo quase abandonado, rodeada de símbolos
alquímicos, grifos e águias, anjos e livros abertos e fechados, o
menino, a lebre e o cão.
Esperam-nos na Abadia. Sob as caves do Palácio Foz
jaz um tesouro maravilhoso. Limpo de entulho, recuperado passo a passo,
eis o antigo restaurante maçónico, onde se repetem os símbo- los de
todo este percurso, numa arquitectura interior dividida em três partes:
o Claustro, o Refeitório e o Coro.
Ali estão 24 bustos, entre os quais uma senhora, ali
estão esquadros, compassos, insígnias. As colunas. O Adepto, com o
barrete frígio, carregando a Sabedoria Divina. Os elefantes, as
andorinhas e as pombas saindo em cruzeiro dum pombal em esquina. "O
Pombal do Cruzeiro Mágico de Portugal". Os cachos de uvas e a raposa
que as olha cobiçosa sem lhes puder chegar, arrancando a desculpa mal
resignada: "Estão verdes, não prestam." E a fonte de corais - fingidos,
evidentemente - que liga pela escadaria do poço anexo aos subterrâneos
de Lisboa. E a laje que dava para o túnel que desembocaria muitos
metros acima, numa outra entrada num edifício junto à Trindade. Essa
entrada está agora gradeada e entaipada, selada também com o leão de
bronze. Mas aqui está a Dragona, iconográfica da Rainha dos Mundos
Subterrâneos, grávida, "simbolizando o parto de uma Nova Era".
E salta à vista um outro pormenor. É tudo falso
neste extinto restaurante, falso porque a madeira parece pedra, a pedra
parece madeira, e as únicas coisas em material pétreo indiscutível são
as colunas. Verde e vermelha:
"Significa matar a ilusão das aparências que quase
sempre enganam. Significa desvelar Ísis, e tomar posse da outra e
verdadeira leitura, a real. Trata-se do conhecimento iniciático que não
vem nos livros nem em quaisquer outros meios públicos de informação,
mas que se deixa perpetuar com muito fingimento, isto é, sabendo
ocultar."
E entramos outra vez no domínio do oculto: Ordens
Secretas. Vitor Adrião: "Há uma, a Ordem do Santo Graal, à qual todas
devem Obediência."
Faz lembrar de novo as especulações à volta de
Fernando Pessoa: seria ele templário? Maçom? E se sim, de qual das
Obediências?
A viagem está quase no fim. Encerramo-la na igreja
de São Roque. Onde toda uma outra história ainda fica por contar.
Remata Vitor Adrião: "Por detrás de minha pessoa e
da Obra Teúrgica de que faço parte, existe a Ordem do Santo Graal."
A partir daqui o seu discurso introduz umas palavras
que não são de uso corrente, estranhas e de sonoridade bizarra, mas
quando lhe pedimos para as repetir ele diz: "Não vale a pena."
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Editada por admin na 2005 - 28 - Abril às 18:18
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