Em 1784 coube a D. João VI apresentar-se como Juiz do Círio de Queluz: «Os festeiros embaçavam em Belém nas galeotas e faluas reais e desembarcavam em Porto Brandão onde o povo os esperava com foguetes e morteiros. Enquanto a Torre de Belém dava as salvas de estilo, o cortejo dirigia-se à Capela onde os “Anjos”, três crianças vestidas à romana, cantavam as “loas”. Em seguida organizava-se o cortejo a caminho do Cabo ao som de música, foguetes e repicar do sino pela seguinte ordem: à frente seguia no meio de grande cavalgada o juiz da festa empunhando a bandeira do círio, depois os três “Anjos” montados em cavalos brancos. Atrás seguia a berlinda com a Imagem da Santa cercada por cavaleiros empunhando velas, depois ia o carro com os Padres, outro com procuradores e finalmente a galera da música. Na cauda seguia o povo em dezenas de carros de toda a espécie com os mais variados ornamentos que formavam uma alegre e extensa fila» (in Praia do Sol, ano III, n.º 46, 1952, citado por Paulo Pereira em Cabos do Mundo e Finisterras, edição Círculo de Leitores, Lisboa, Janeiro de 2005).
Além das galeotas e faluas reais, havia outros meios para atravessar o Tejo, pois esse era negócio assente desde há muito, como consta de um documento de 1284 assinalando um encontro entre as autoridades de Almada e Lisboa, para «discussão dos preços da travessia do Tejo a cobrar a homens, bestas e cestos».
No século XIX e boa parte do seguinte haviam três tipos de embarcações comerciais que faziam a travessia (in Luís Chaves, Os Transportes Populares em Portugal. Carros e Barcos. INATEL, Lisboa, 1958):
Botes cacilheiros = ligando Lisboa a Cacilhas;
Botes catraios = ligando Belém a Porto Brandão;
Faluas = ligando Lisboa ao Montijo.
Visita feita à berlinda processional no Museu dos Coches, de Belém – onde começou a minha viagem nostálgica à infância passada, e que teve maior crivo interior na “outra banda” por ter passado largo tempo nos lugares visitados – encetámos a travessia do Tejo indo directamente para Porto Brandão.
Era aqui, no Porto Brandão, que o Círio se reunia e começava a peregrinação em direcção ao Cabo Espichel, mas antes indo à próxima estação sacra, gnoseológica, do Monte da Caparica.
Logo no Porto Brandão está a igreja de São Luís de França, onde se celebrava missa aquando da chegada do Círio Mariano, e nela esteve um rico trono oferecido pelo rei D. Pedro II ao pároco do Monte da Caparica.
Lugar e igreja altercam-se metonimicamente cujo resultado supera largamente o simples sentido de passagem obrigatória de festeiros devotos…
Com efeito, o Rei São Luís de França insere-se naquela linhagem de reis sagrados pelo Divino Espírito Santo cuja primazia europeia cabe a D. Afonso Henriques de Portugal. Logo, transpondo o coração da Europa, a França, para o mental da mesma, a Lusitânia, temos São Luís integrado figuradamente à primeira Linhagem Sagrada do continente, facto dado aquando do Milagre Cristológico de Ourique, nas planícies do Baixo Alentejo. Para que o Poder Real fosse efectivamente reconhecido pela Autoridade Sacerdotal, cabia prestar-lhe o dízimo da sua vassalagem ortodoxa, conforme era uso em sociedade tradicional. Nisto, acaso estará a oferta do trono pelo rei ao sacerdote caparicano.
Mas o reconhecimento espiritual do temporal, o seu crisma, só teria efectivação numa “Terra Bem-Aventurada”, neste caso, o Portus Brandonis da “Ilia” Brandonis aonde chegou o nauta irlandês da saga lendária medieval, toda ela remetendo para a tradição hindu-europeia desse outro mítico e misterioso “Reino de AGHARTA”.
A Ilha utópica de São Brandão ficou conhecida em Portugal através de um texto de que existe a versão latina no cartório de Alcobaça: a Vita S. Brandani Abbatis clumniacensis in Hybernia, mas que foi objecto de inúmeras traduções na Europa. São Brandão seria bispo e abade de Clonfert, na Irlanda (Hibérnia), e terá vivido no século XI. A sua viagem marítima irá recobrir inúmeros aspectos podendo-se atribuir ao deus Bran céltico e à sua viagem. Os nautas companheiros de São Brandão, em número de catorze, passam na odisseia marítima diversas provações num esquema progressiva de carácter claramente iniciático, percorrendo diversas estâncias com nomes sugestivos, tais como “Planície do Prazer”, a “Terra da Felicidade” e a “Terra dos Bem-Aventurados” (in Paulo Pereira, Paraísos Perdidos e Terras Prometidas. Edição Círculo de Leitores, Lisboa, Dezembro de 2004).
Nesta metonímia a Hibérnia se encontra aqui com a Ibéria, sua colonizadora proto-histórica, assim como a França com Portugal, o Coração com a Mente, e, transpondo as provações dos nautas irlandeses da lenda para o circuito do Giro, temos então que elas são vencidas graças à intervenção materna e divina da Shekinah, a melhor Timoneira para conduzir com segurança a Barca dos Fiéis pelo Ignoto Mar Atlante (o Tejo) até à “Outra Banda” ou novo aspecto da Existência, assinalado no Porto Seguro de Brandão.
Barca ou Agharta, tanto vale. Mesmo assim coaduna-se com esse sentido velado o episódio ocorrido cerca de 1900 quando chegou ao Porto Brandão o cortejo do Círio: os seus marinheiros integraram esse cortejo com um outro levando um dos seus “botes catraios”, devidamente pintado e ornamentado, em cima de uma galera puxada por animais. Na embarcação seguia a filarmónica da Sociedade Marítima do Porto Brandão.
Mas a história corrente, entremeslada à lendária, por uma e outra cultivarem dúvidas sobre a origem do lugar, não é isso que contam.
É facto que o lugar já era conhecido dos romanos e árabes. Destes ainda há a herança toponímica dos lugares próximos de Murfacém, nome oriundo de Mo-ha-cem, “filho de barbeiro”, onde ainda sobrevive o testemunho de trinta cisternas árabes, e da Banática, corruptela de Ben-Ataija, “paço do príncipe”. Entre os latinos o Porto Brandão era a Equabona, remetendo para as águas medicinais brotando de nascentes sobre o casario e que, por suas propriedades curativas, depressa os achacados e lazaretos ou agafados (leprosos) do sítio propagaram a sua fama de “santas”. Aí está o povoado da Fonte Santa por cima do Porto Brandão, referido desde o século XVI como “Fontes Santas”, indicando a existência de nascentes de águas medicinais. O fontanário que se encontra no Largo Carlos da Maia foi reconstruído no século XIX, passando a localidade a chamar-se Fonte Santa. A água que brota desta fonte não é potável, tendo sido esquecidas as suas propriedades curativas (in Patrícia Freire, Lugares da Caparica. Centro de Arqueologia de Almada, edição da Junta de Freguesia da Caparica, Novembro de 2005).
Mas certamente não estavam esquecidas para os festeiros do Círio que saindo da igreja de São Luís de França subiam a estrada e aí se detinham, alguns deles para se banhar, como se tratasse de uma espécie de baptismo ou banho lustral purificador, para que puros de corpo e alma (tanto que a lepra antanho era considerada sobretudo uma doença uma doença de alma, de karma contagioso…) pudessem subir o Monte Pio de Santa Maria da Caparica, assim tomando-o como verdadeiro Mons Sacer, “Monte Sagrado”. Mas já lá irei!...
O nome actual do sítio surgiu entre 1472 e 1519, altura em que existia a Quinta da Azenha, de Francisco Sá Menezes, bisneto de Diogo Brandão, responsável pelas obras públicas de Lisboa, por sua vez filho de Pedro Brandão, cujo apelido deu origem ao Porto Brandão. Esta é a explicação genealógica-historiográfica quanto à origem do lugar. Mas também há a lendária, que é uma verdadeira tragédia de amor entre enamorados saveiros. Ela conta assim:
Havendo estaleiro naval aqui um jovem operário do mesmo, Brandão, apaixonou-se por uma linda rapariga de nome Paulina, filha de um negociante rico que se encontrava na Índia. Quando soube do namoro, o pai opôs-se ao casamento e mandou que a filha fosse para junto dele. Então Brandão tentou raptar a jovem já no navio que a iria levar à Índia. A tripulação descobriu-o, matou-o e atirou o corpo ao rio à vista de Paulina. Desgostosa, também ela se atirou ao rio e morreu afogada. Diz a lenda que o cadáver de Brandão deu à praia neste Porto, daí em diante levando o seu nome, enquanto o corpo de Paulina deu à costa numa pequena praia ali perto, passando a chamar-se Praia da Paulina, hoje Praia do Larazeto (in Carla Figueiredo, Porto Brandão – O Porto dos Amantes. Jornal da Região de Almada, n.º 5, 12.11.97, e também, com ligeiras diferenças no conto, À Descoberta de Portugal, p. 327, edição das Selecções do Reader´s Digest, Lisboa, 1982).
O possível significado dessa lenda remeterá para a relação afastada ou ausente, por receio do perigo iminente de contágio, entre a população marítima do Porto, representada por Brandão, e os lázaros ou lazaretos, representados por Paulina, instalados no sítio do Lazareto, a nascente da Torre de S. Sebastião da Caparica. Para substituir o Larazeto Velho ali instalado, o Lazareto Novo destaca-se pelas soluções arquitectónicas utilizadas (planta radial) e pela dimensão do edifício. Construídos seis blocos distintos no interior, separando os doentes dos visitantes e funcionários, possuía também estruturas de desinfecção, armazenamento e um cemitério privativo. Tendo sofrido várias vicissitudes, desde 1989 que o edifício se encontra fechado.
Galgado o sítio da Fonte Santa, chegou-se ao antigo Largo da Torre do Conde, hoje Largo Bulhão Pato, onde se observa ainda o que resta da casa de habitação, armazéns agrícolas e um lagar, pertencentes à Quinta da Torre. Tudo isolado em desoladoras ruínas num desolado e minguo pedaço de terra cercado pelo complexo da nova estrada e o “campus” universitário. Apertou-se-me o coração, custei o reconhecer o sítio onde passei parte da minha infância, de onde saía para ir aprender as primeiras letras e números na escola primária do Monte Caparica. A ganância perdulária de alguns construtores civis destruiu por completo páginas irrecuperáveis da nossa História Pátria. E, ao que sei, ninguém fez nada… Se no meu tempo passado aí era muita a miséria social, que bem senti na pele, bem parece que nada mudou, pois que a miséria continua. “Sinais do progresso”, dizem. Qual progresso? Quando se apaga a Memória, fica só o retrocesso.
Como muito bem diz Patrícia Freire (in ob. cit.), a Quinta da Torre foi das mais importantes do Reguengo da Caparica, quer pela produção agrícola, que pela proximidade das “Fontes Santas” e pelas relações dos seus proprietários com a família real e nobreza da corte. A 24 de Janeiro de 1570, após alvará passado por D. Sebastião (outro real devoto do Círio da Senhora do Cabo), é instituído por D. Tomás de Noronha, antepassado dos Condes dos Arcos que possuíram esta propriedade até finais do século XX, um morgado de capela, cuja principal propriedade é a Quinta da Torre. O seu topónimo terá origem na existência de uma torre medieval, possivelmente mandada erguer ou pelos Templários de Cristo ou pelos Espatários de Santiago, pois que ambas as Milícias por aqui andaram (como atesta uma pedra de cabeceira funerária templária encrostada no exterior da parede frontal da igreja do Monte Caparica), desaparecida após o terramoto de 1755.
No século XVI foi construída no pomar da Quinta uma ermida dedicada a S. Tomás de Aquino. Aí se realizaram, no século XVIII, matrimónios entre as famílias dos Condes dos Arcos e dos Condes de S. Miguel, cerimónias às quais compareceu parte da corte de D. João V. Arruinada pelo terramoto de 1755, a ermida esteve ao abandono até 1980, altura em que foram tomadas algumas medidas para a sua preservação, nomeadamente a remoção das terras acumuladas no interior, consolidação das paredes e colocação de uma cobertura. Apesar de actualmente se encontrarem em zona de difícil acesso, a ermida de S. Tomás de Aquino e o poço rectangular com duas colunas de pedra, nas suas proximidades, constituem exemplares únicos da arquitectura Manuelina no Concelho de Almada.
Encostada à Quinta da Torre, havia umas casas onde na n.º 3 uma lápide assinalava aquela onde viveu Bulhão Pato, poeta, gastronómico, makavenko e maçom de Alto Grau. Foi autor do famoso e belo Livro do Monte, editado em 1896. Faleceu em 24 de Agosto de 1912, repousando os seus restos mortais no cemitério do Monte da Caparica.
Finalmente, chegou-se ao largo da igreja de Nossa Senhora do Monte, no topo deste assinalando o centro axial da povoação. Contando com 17 localidades (que vai bem com o número igual do biorritmo de Portugal), ele incluído, o Monte Pio de Santa Maria da Caparica, ou Monte Pio de Nossa Senhora do Cabo, foi instituído sede de freguesia da Caparica desde a sua fundação em 20 de Novembro de 1472, por bula do Papa Sisto IV. Foi elevada a vila em 27 de Setembro de 1895, tomando a designação oficial de Monte da Caparica.
A igreja foi fundada em 24 de Maio de 1482 e sagrada por D. Nuno, bispo de Tânger, tendo sido erigida sobre uma ermida consagrada a Santa Maria, que não me custa muito admitir fosse de fábrica Templária, devido aos elementos achados em volta deste espaço relacionados com essa Ordem medieval. O terramoto de 1755 arruinou o templo, mas D. José I mandou reconstruí-lo, decorrendo as obras entre 1756 e 1760, dando ao edifício a traça actual, mantida através de várias obras e manutenção e restauro de que tem sido alvo.
De destacar, por sua importância para a história da freguesia, o episódio da rainha D. Carlota Joaquina ter oferecido à Senhor do Cabo uma capa rica, muito valiosa, que esteve exposta nesta igreja durante algum tempo. Daí adviria, para a memória local, a origem do topónimo Caparica, isto é, Capa-Rica. Mas, segundo os eruditos, provém do árabe Al-Kabbara, derivado do latim Capparis, por sua vez oriundo do grego Kapparis, “Alcaparra” (Caparis Espinosa).
Realmente as alcaparras abundam nestas partes marítimas do Concelho de Almada. Mas adaptando o significado dessa planta ao que subjaze, qual Tesouro da Caparica, nesta parte, mormente na igreja do Monte Pio ou Sagrado, tem-se a alcaparra como sinónima “de embuste, de engano”, ou melhor, do que vela o real sob a ilusão da aparência, o que transfere ao sentido de enigma. E grande, valoroso e valioso enigma há nesta igreja paroquial…
Apresentando exteriormente fachada de estilo “chão” ou neoclássico, com um frontão triangular e torre com campanário e relógio, o interior do templo é composto por uma nave única com tecto em abóbada de berço e capela-mor. No altar-mor, o retábulo é de talha dourada neoclássica e nele se admira uma escultura em madeira policrómica de Nossa Senhora do Monte. Nos restantes altares laterais existem vários retábulos, barrocos, e na capela do lado da Epístola está uma tela do século XVIII, representando a “Última Ceia”. Permeio aos altares laterais, nas paredes de ambos os lados, patenteiam-se enormes painéis de azulejos legendados em latim neoclássicos setecentistas, oriundos da Fábrica do Rato, Lisboa, historiando em forma de enigma cortesão, quase desinteressante ao contexto sagrado do espaço, os passos bíblicos do Cântico dos Cânticos.
Mas é precisamente o Cântico dos Cânticos ou Livro dos Cantares – Cântico Superlativo – atribuído a Salomão cerca de 400 a.C., o ponto de encontro e concórdia entre o Judaísmo e o Cristianismo, este nunca esquecendo o encómio exaltado do Rabi Akivá, perto do ano 100 d.C.: «O mundo inteiro só foi criado, por assim dizer, por causa do dia em que o Cântico dos Cânticos seria dado a ele. Pois se todas as Escrituras são Santas, o Cântico dos Cânticos é o Santo dos Santos»!
Ordenando a Escritura Velha em três classes – Livros Históricos, Livros Sapienciais e Livros Proféticos – os cristãos consignam o Cânticos dos Cânticos no grupo dos Sapienciais. Constitui-se de uma colectânea de hinos nupciais ordenados em oito capítulos. Por detrás da forte carga erótica que apresenta no encontro entre dois jovens enamorados (parecendo estar aqui retratada na lenda caparicana de Brandão e Paulina…), o enigma sapiencial aponta sobretudo a hierogamia transcendente, ou seja, a união duma deusa feminina com um deus masculino, para não dizer a núpcia filosófica da Alma com o Espírito, Anima e Animus, Psike e Eros, Shakti e Kartri, e isto é a Alquimia da Alma, a Húmida ou Andrógina.
Na teologia cristã, o Cântico dos Cânticos é simbólico da núpcia da Igreja com Cristo. Já na teologia judaica, indica a união da Bem-Amada Shekinah, ou Requinah, com o Messiah, o “Novo Salomão”. Transpondo essa interpretação para o contexto setecentista português, significativamente D. João V foi justamente apodado de “Rei Sol” e “Novo Salomão” (Messiah), ele devotadíssimo da Virgem de Mu (Shekinah), e à presença e influência de ambos aqui se liga o Monte Pio da Caparica, a “alcaparra” ou segredo escondendo a mensagem de uma Nova Terra, de uma Nova Israel (“Realeza de Ísis”) a construir no Ocidente da Europa, tal qual a Paradhesa ou Paraíso Terreal estava a Ocidente do Mundo, essa mesma Atlântida em seus dias áureos, antes do Dilúvio Universal – assinalado em dois silhares de azulejos legendados junto ao baptistério, que é Sacramento de Espírito Santo – a afogar no Oceano que lhe leva o nome, Atlântico.

Há, pois, aqui duas leituras da tradição judaico-cristã, a teológica ou de catequese e a gnóstica ou teosófica. Elas se confrontam e, contudo, se interpenetram nas suas transliterações. Este facto é aqui patenteado no aparente conflito teologal entre dois personagens célebres da Igreja: João Escoto e Tomás de Aquino, este ortodoxo e aquele heterodoxo no contexto doutrinal e entendimento da mesma doutrina.
Se Tomás de Aquino é um dos doutores da Igreja Romana, a ele se devendo a introdução do celibato sacerdotal e a manutenção da letra da catequese, o que se mantém até hoje, já João Escoto Erígena (“nativo de Erim”, o que remete mais uma vez para a presença da Hibérnia nesta parte da Ibéria), nascido na Irlanda no ano 810 d.C. e falecido em Paris em 877, foi o expoente máximo do Renascimento Carolíngeo no século IX. Filósofo, teólogo e tradutor na corte de Carlos, o Calvo, aliou o Platonismo à teologia Agostinha, neo-Platónica, pelo método teúrgico-gnóstico de Dionísio, o “Aeropagita”. As suas principais obras literárias, foram: Sobre a Predestinação; Sobre a Divisão da Natureza; Exposições sobre a Hierarquia Celeste.
A João Escoto anda associada a tradição dos Reis Visigóticos e Merovíngios carregando para o mais Ocidente da Europa a pressuposta “Linhagem Perdida” do Sangue Real do Messiah da Escritura Nova, a qual os iluminados esclarecidos da corte de D. João V pretenderam reachá-la neles mesmos, cedo passando da ideia à prática indo difundir à ideia universalista do V Império do Mundo, dirigida por essa mesma Corte de Iluminados em torno do seu Rei Sagrado, o “Rei Sol” ou Novo Messias Salomónico: D. João V. E boa parte de todo esse plano sinárquico se terá desenrolado aqui, no Monte Pio da Caparica.
Aliás, já antes dessa época havia nesta igreja diversos objectos que eram motivo de escândalo para as mentes reguladas exclusivamente pela ortodoxia da doutrina, sem mais e nenhum aprofundamento ou análise do sentido da mesma. Tratava-se do culto da “letra pela letra”… esquecendo ou ignorando que “a letra mata e o Espírito vivifica”. Seja como for, no século XVII, em 24 de Setembro de 1634, foram retiradas desta igreja várias peças motivos de censura, por ordem do padre Jorge Cabral, da Mesa da Inquisição, ao pároco da Caparica, António Luís. Dentre esses objectos contava-se um retábulo de quatro painéis pintados em 1627 por Domingos Vieira, de alcunha “O Escuro” (desconheço se pela cor da pele, se pela cor da crença…), domiciliado em Lisboa, a pedido do cura desta igreja, António Rodrigues das Neves, no tempo em que era oficial da Confraria de Nossa Senhora da Conceição.
Nesse retábulo constavam imagens consideradas considerada heréticas com os respectivos letreiros, também heréticos, num deles aparecendo S. Tomás de Aquino humilhado, vencido ante um muito alegre Escoto. Letras e imagens do retábulo foram escrupulosamente raspadas pelo padre António Luís. Esta peça preciosa da Pintura Portuguesa desapareceu após o terramoto de 1755, mas Sousa Viterbo dá notícia dela no seu livro Notícias de Alguns Pintores Portugueses, editado em 1909.
Também com essa interpretação dupla da mesma doutrina, superficial ou aprofundada, tem a ver o significa da lenda do Monte da Caparica, na qual uma moça caparicana herdou dum velho (de Alcabideche, Sintra) uma capa rica, que guardou até aos últimos dias da sua velhice, tendo-a depois oferecido à Mãe de Deus, indo cobrir a sua Imagem milagrosa na Basílica Real do Cabo.

Para Emanuele Boaga, da Ordem Carmelita (in Para “ler” as lendas marianas da Idade Média. Revista Carmelo Lusitano, n.º 12, Lisboa, 1994), na descodificação das lendas religiosas é essencial ter presente estes critérios:
– Um facto miraculoso ou extraordinário na vida do santo ou do grupo para sublinhar a presença de Deus no mesmo;
– As referências bíblicas ou aos padres da Igreja servem para favorecer uma interpretação teológica da vida do santo, situando a sua missão na Igreja e na história da Salvação;
– Metáforas e símbolos usados para comunicar experiências indizíveis.
Entre os símbolos predominantes nesta literatura dos miracula e exempla Mariana, temos:
– Símbolos da Casa-Templo: lugar de encontro entre o Céu e a Terra, da nova Criação. Aplicados a Shekinah ou a Maria, indicam intimidade, vizinhança, familiaridade, protecção e surgimento de nova vida. Shekinah ou Maria torna-se arquétipo daquele que o seu devoto deseja ser.
– Símbolos Maternais: que exprimem protecção, misericórdia, ternura. O tema da Virgem que cobre com o seu manto exprime compaixão e protecção. Maria Patrona como Mãe de Misericórdia revela a “Face Materna de Deus” para o Homem. O tema da Mãe-Terra aplicado a Maria parece estar presente para indicar que Maria recorda-nos a Terra Natal (a Paradhesa), e estimula a saudade dela e a memória das origens.
– Outros símbolos Marianos: são vários, com referência a aspectos vegetais, aquáticos, siderais, lunares, etc., símbolos cujos sentidos são atribuídos às funções do Espírito Santo e que, assim, correlacionam Maria com Ele. A “nuvenzinha” que traz a chuva é símbolo aquático da fertilidade e da maternidade. O Flos Mariae e a “videira florida” são símbolos vegetais da fecundidade, da regeneração, da beleza de Deus e de harmonia. A “estrela-do-mar”, stella maris, é símbolo sideral de Vénus, indicando Maria como ponto de referência para a Salvação.
Todos esses símbolos podem ser examinados interrelacionando-os entre si. Assim, descobre-se que a finalidade dos exempla e das miracula favorece o sentido genuíno e autêntico do Padroado Mariano sobre Portugal, o que é tão sensível neste Monte Pio de Santa Maria da Caparica.
Foi da Caparica para o Cabo Espichel que rumou de seguida a comitiva destes novos festeiros nesta nova peregrinação, certamente devota e pia, igualmente esclarecida.
Aí, visitou-se o que havia a visitar: as casas dos romeiros sobre arcaria de ambos os lados (63 arcos do lado esquerdo, e 47 arcos do lado direito), a Basílica Real da Senhora de Mua ou da Mulinha da lenda, a Ermida da Memória, etc. Sobre tudo isso já falei, escrevi e publiquei, pelo que desnecessito repetir-me, remetendo o respeitável leitor para a bibliografia inicial da minha lavra.
Após, deram-se as despedidas cordiais com todos aparentando satisfação por também terem o privilégio de honrar e seguir as passadas espirituais de tantos e tantos devotados a Santa Maria do Termo dos Saloios e dos Saveiros, cuja Bandeira e depois Imagem ambas sempre estiveram sob a legenda salvífica, luminosa e esperançosa, de Stella Maris.