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Sintra, 3.03.2009
Entrevista de Alagamares – Associação Cultural a Vitor Manuel Adrião
P. – O que motiva que Sintra seja considerada uma terra sagrada sobretudo em função da sua serra? A densa arborização, a existência de construções simbólicas ou o espírito do lugar?
R. – Tudo isso e tudo o mais que, afinal de contas como acabou de dizer, é o Espírito do Lugar, a sua Alma Sinergética cuja potência faz dela um dos Pólos, Quths, Chakras, Plexos ou Centros Vitais do Mundo, precisamente o Quinto ligado à Fala, ao Verbo, à expressão criadora do Espírito Santo, prenúncio de uma Nova Idade que, auguriam vates e sibilas, predizem profetas e iluminados desde sempre, haverá um dia de nascer nesta parte ocidental da Europa, aqui mesmo, em Sintra, e por isto é Serra Sagrada. Segundo a Tradição Iniciática das Idades, assumida Teurgia ou Obra do Eterno na Face da Terra, o planeta possui sete centros de força psicomental exteriorizados como plexos nevro-sanguíneos dando a vitalidade e o movimento, animando a tudo e a todos, a começar pelo Homem. Ora o Centro Laríngeo do Globo situa-se em Portugal, a alguns quilómetros de profundidade na perpendicular da zona logo a Norte do Rio Tejo, abrangendo a Serra de Sintra e Lisboa. Tem sido este Centro irradiante que ao longo dos milénios feitos de séculos tipificou toda a vida do nosso país e, por que não dizê-lo, de todo o continente europeu. Foi a sua vibração radiante que atraiu os povos da Antiguidade para este local e permitiu o aparecimento de várias gerações de grandes homens que, com os seus feitos, foram os responsáveis da afirmação de Portugal no Mundo. Nesse verdadeiro movimento civilizacional, em direcção ao quinto continente americano, propriamente a América do Sul, os portugueses sob o pendão sintriano têm sido os motores psicossociais com que se caldeia o futuro do planeta e se firmam as raízes do futuro Pólo Espiritual da Terra, o Brasil, que Pedro de Mariz, no século XVII, afirmava ser a “Nova Lusitânia”.
P. – Quais os simbolismos mais visíveis na representação construtiva da serra de Sintra?
R. – O símbolo vale quando reserva, como parábola ou alegoria, determinado conhecimento que retrata. Na gnoseologia sintriana, cuja Serra tem “cara-metade” com o seu pico montanhoso elevado ao céu e a sua parte escondida mergulhando no seio da Terra, assinalado nas suas inúmeras concavidades algumas de profundeza insondável, repete-se um Sistema Planetário com o Sol e os sete Planetas tradicionais à sua volta, aqui, sete Lugares Jinas e mais um Oitavo Central, no dizer do insigne Dr. Roso de Luna, seguindo o Pensamento Teosófico do Professor Henrique de Souza que foi o primeiro, logo ao início do século XX, em 1900, a estar em Sintra e a promanar ao Mundo a seu “fácies” ocultada. Desde então, todos quantos vêm falando dessa mesma “fácies” repetem o que o Professor proferiu e escreveu, e que venho divulgando, com o devido doseamento, em Portugal desde há mais de trinta anos. Pois bem, o Sistema Geográfico Sintriano, de acordo com a Tradição Iniciática, dispõe-se da seguinte maneira: Castelo dos Mouros, regido pelo Sol; Santa Eufêmia, regida pela Lua; São Martinho, para Marte; Seteais, para Mercúrio; Pena, auspiciada por Júpiter; Lagoa Azul, regida por Vénus; S. Saturnino, para Saturno. O Pólo Central é a Trindade, onde estava uma belíssima Senhora do Ó, portanto, Virgem Grávida a quem o Anjo da Natalidade, Gabriel ou Jibraîl, parafraseando S. Lucas, terá anunciado o “Fruto bendito do seu ventre”. Aqui, este “Fruto bendito” é a própria Serra Sagrada grávida do Divino palpitando em todo o Homem de alma verdadeiramente sintriana, redentora e parúsica, pela Graça do Divino Espírito Santo, o Terceiro Trono, Logos ou Hipóstase que também é Mariz Nostra… Sintra, Mulher Divina, Alma do Mundo que desde o Paleolítico e Neolítico aqui se consigna como a Grande e Primordial Deusa-Mãe.

P. – Quem considera serem as personagem mais marcantes na História de Sintra?
R. – São tantas que se perde o conto, a começar pelo seu povo, bondoso e honesto, trabalhador e afã cuja origem se mistura aos Saleh, povo mauritano vivendo às portas do Egipto, para aqui emigrado no século VIII d.C. e que deu no Çalaio e depois Saloio. Na Idade Média sintrense, além da presença arábica dos filósofos e poetas do Amor, como Ibne Becre David Maruani Al-Xintari, têm-se as figuras marcantes do Mestre Templário Gualdim Pais, de D. Dinis, culto “rei-trovador”, e da Rainha Santa Isabel, por exemplo. Na Renascença e no Maneirismo, tem-se D. Manuel I, Luís de Camões e João de Barros, dentre outros. No Iluminismo, encontra-se aqui o Marquês de Pombal e a sua corte de esclarecidos. No Romantismo, além do Dr. António Augusto de Carvalho Monteiro, feitor da inigualável Quinta da Regaleira e que é já do pós-Romantismo, destaca-se a figura incontornável do “rei-artista” que também era Iluminado nos Mistérios Sintrianos, D. Fernando II, este que quis fazer de Sintra a Capital Espiritual da Europa e ditou numa das suas primeiras cartas para Coburgo que “Portugal estava fadado pelo Céu a ser imensamente feliz”. Na Modernidade, brilham os nomes de Francisco Costa e de José Alfredo da Costa Azevedo, e o de todos quantos menos se servem e mais servem a Sintra, ao seu Povo e Cultura, seja em que aspecto for, sim, a Bem e só a Bem de Sintra.
P. – Existe algum desígnio que nasça ou emane de Sintra?
R. – Pelas razões já descritas, da perspectiva espiritual impulsionando a humana, desde a primeira hora de Portugal que a Diáspora deste para o Mundo e do Mundo para aqui, tem tido como pólo axial Sintra, a que se liga o sentido de Portugalidade, tanto no conspecto místico quanto político, e que alguns detestam por complexos intelectuais cujo entendimento mais profundo é-lhes inacessível por se limitarem à literacia rebuscada de outros atribuindo a Portugal complexos existenciais e derrotistas que no fundo são, numa análise freudiana, não os do país mas os seus próprios, “limitando a visão do mundo e do pensamento humano ao aro envaidecido do seu próprio umbigo”. É triste mas existem pessoas assim, que certamente discutiriam e tentariam corrigir um Padre António Vieira, um Fernando Pessoa ou um Agostinho da Silva se acaso ainda hoje estivessem vivos. Se não gostam de Portugal que para eles não passa de “país de faz-de-conta” ou “país das fantasias”, então, por que não emigram?... Em última e suprema instância, o Desígnio maior de Sintra é a Realização de Deus através do Homem, e aqui entra a profecia lapidar da Serra: “Quem nasce em Portugal é por missão ou castigo”. O que vai de encontro àquela outra que diz “… quando as águas do Ganges se unirem com as do Tejo”, ou seja, quando o Oriente se encontrar (espiritualmente) com o Ocidente, aqui mesmo em Sintra, “Portugal será imensamente feliz”.
P. – Para além da sua, quais as obras e autores que considera mais representativos do sentir e interpretar dos desígnios de Sintra?
R. – Dos meus mais de 50 livros e vários milhares de artigos, todos editados, e milhares de conferências feitas, com larguíssimas centenas dedicadas exclusivamente à Serra de Sintra, para não falar das visitas de estudos e da ritualística da Soberana Ordem do Santo Graal aqui efectuada ao longo de todo o século XX, na qual tenho cargo destacado desde 1972-73, escrevi uma trilogia literária que dediquei a Lisboa e Sintra: “Sintra, Serra Sagrada”, “Quinta da Regaleira (A Mansão Filosofal de Sintra)”, “Lisboa Secreta (Capital do Quinto Império)”, editados pela Dinapress e pela Via Occidentalis. Além da minha pessoa, há a extraordinária colectânea em vários volumes de José Azevedo, com o título “Velharias de Sintra”, as monografias preciosas de Francisco Costa, de que destaco a sua publicação do Foral de Sintra, a “Cintra Pinturesca” do Visconde de Juromenha, o “Paço de Cintra” do Barão de Sabrosa, a “Crónica do Imperador Clarimundi” de João de Barros, o “Auto do Inverno” e o “Auto da Lusitânia” de Gil Vicente, a “Écloga Cintra” de Luís de Camões, e todos os mais autores que têm, de maneira imparcial e honesta, desprovidos de interesses político-partidários ou religiosos sectários, vindo a escrever e descrever a antiquíssima e grandiosa História do Concelho de Sintra, cuja área paisagística, logo englobando toda a serra, os seus recursos naturais e os seus monumentos, é hoje Património da Humanidade.
P. – Está o Santo Graal em Sintra?
R. – A Taça original do Santo Graal já esteve em Sintra. Hoje está em São Lourenço de Minas Gerais do Sul, no coração da Serra da Mantiqueira, lá no Brasil, assim corroborando a assertiva “Nova Lusitânia” de Pedro de Mariz, conformada à marcha cíclica da Civilização Humana do Oriente para o Ocidente, ficando Portugal permeio, aliás,”Porto-Graal”, como está no selo rodado do documento de D. Afonso Henriques doando Tomar aos Templários. Essa Taça de altura e largura consideráveis, é feita em ouro maciço e pesa 55 quilos. Aqui em Portugal, em Sintra está uma réplica sua, como se fosse “avatara” da mesma, e é quanto basta saber. Talvez por isto e muito mais o Professor Henrique José de Souza, fundador da Sociedade Teosófica Brasileira, desde 1900 a 1963, ano da sua morte, chamou de maneira sibilina ao sítio da Cruz Alta de “Pico do Graal”. O Graal como objecto relíquia é repositório das mais elevadas Influências Espirituais, assim mesmo representando à Mãe Divina na forma de Espírito Santo, a Avis raris in Terris. O Graal como estado de consciência expressa a Mente Espiritual, afinal, o mesmo Espírito Santo soprando no Homem. Aquele expressa exteriormente à interioridade deste, ambos se completam.

P. – Em sua opinião, quais os aspectos ou lugares sagrados de Sintra que mereceriam um olhar mais premente em função da sua musealização ou preservação?
R. – Gostaria sinceramente que mais uma vez a Serra e todo o Concelho de Sintra não servissem de aproveitamento político-partidário na busca frenética do poder pelo poder para usufruto de alguns privilegiados e não de todos os eleitores que acabam votando mais por simpatias infundidas do que por ponderação e raciocínio próprios, agora que se avizinha o período eleitoral e cujas primeiras movimentações eleitoralistas “dejá-vu” tenho vindo a observar, o que me faz temer quanto ao futuro sócio-cultural, económico e patrimonial do país e, neste particular, de Sintra. A Quinta da Regaleira carece de intervenção imediata, o seu jardim está um desleixo e o interior do palácio contém «novidades», como o bizarro «salão da biblioteca», que não deviam lá estar. Até já falaram em construir um parque de estacionamento no local. Por que não constroem antes uma estação de metropolitano? O mesmo vale para a Volta do Duche e o derrube das árvores centenárias, como os cedros que estavam à entrada de Sintra, no Ramalhão. A Capela de Santa Eufêmia está um abandono e ameaça ruína eminente. O autismo «new age» diz que é um «templo pagão», e o autismo partidarista afirma-o merecer o «apagão» do mapa da Serra, mesmo sendo o lugar onde Sintra nasceu como povoado. A Peninha está abandonada, tanto as capelas como a área florestal circundante. O jardim do Parque da Pena mostra-se uma desilusão constrangedora aos milhares de visitantes vindos das várias partes do mundo. À noite, qualquer um pode assaltar e roubar o Palácio da Pena, que ninguém mora lá. Onde pára a vigilância policial de toda a Serra e a dedicação autárquica a toda a Serra e ao Concelho? Continuarão os munícipes a deixar-se enganar por gente bem-falante e interesseira mas sem nenhum amor à terra, que tampouco conhece? Esta não é hora de «bairrismos», nem de «futebolismos» e nem de «corporativismos agrários», esta é a hora de reflexão profunda, completamente independente e só sua por parte de todos, pois que em breve irão decidir nas urnas o futuro de Portugal, o futuro de Sintra.
P. – Que simbolismos se podem associar ao Chalet da Condessa d´Edla?
R. – Eis aí outro exemplo constrangedor de destruição do património de Sintra. Durante anos a fio avisei as autoridades locais, repetidas vezes pela comunicação social, que um dia aconteceria uma desgraça ao Chalet, tal o estado de abandono em que estava, e desgraçadamente assim aconteceu: pegaram-lhe fogo e só sobraram as paredes-mestras. Também a tapada do Mouco onde está a casa de campo da Condessa, tem sofrido o maior desbaste florestal, sem que ninguém denuncie. Agora, várias associações culturais privadas, com destaque para a Alagamares que nisto é feliz, têm se esforçado para reconstruir o imóvel e essa parte do Parque da Pena. Faço bons votos que assim seja, e resta, após sê-lo, dar uma utilidade ao edifício, por exemplo, a criação nele de um museu dedicado a Elise Hensler, a Condessa d´Edla, esposa morganática de D. Fernando II. Este Chalet foi o primeiro do género em Portugal e constituía-se de simbolismos singulares todos inspirados na temática do Santo Graal, caríssima esse rei e a esta quase rainha que, verdadeira “druidisa” da Serra que tanto amou, quis ter no seu túmulo, no cemitério dos Prazeres, em Lisboa, uma réplica exacta da Cruz Alta, já que não pôde morrer em Sintra, para aí mandando que levassem penhas da Serra, para ficar eterna sob elas. Não isto significativo, acto comovente e exemplar para todos os verdadeiros sintrenses, tanto os naturais como os de adopção mas verdadeiros?
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