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Assunto Tópico: O Simbolismo da Páscoa Nova mensagemNovo tópico
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Colocado: 2009 - 03 - Maio às 11:10 | IP Ligado Citar admin

O Simbolismo da Páscoa

Vitor Manuel Adrião

Sintra, Sexta Feira de Paixão de 1988

             O Sacramento da Páscoa possui tamanha antiguidade e universalidade que subjaz nas tradições religiosas mais remotas, muitas delas sobrevivendo até hoje.

             Nós, ocidentais, sem dúvida estamos mais familiarizados com o festejo pascal judaico-cristão, celebrando os judeus a memória bíblica de Abraão ter oferecido o seu filho primogénito em sacrifício a Deus, imolação impedida pelo Anjo do Senhor que preferiu a dádiva dum CORDEIRO, sendo também a celebração do Êxodo Hebraico da saída da escravidão do Egipto. Entre os cristãos, o tema pascal liga-se à Paixão e Ressurreição de Jesus Cristo.

             Mas, como em tudo, a Páscoa possui três leituras que se completam entre si, sabido ser o número três o número perfeito pitagórico, como já o disse há dias atrás no programa radiofónico Raio X da Páscoa, da Rádio Comercial – Antena 1, dirigido pela radialista Isabel Portugal.

 

             Páscoa  Teogónica         Mundo Divino      1.º Trono  Pai

             Páscoa  Cosmogónica    Mundo Celeste     2.º Trono   Mãe

             Páscoa  Antropogónica  Mundo Terrestre  3.º Trono  Filho

 

             À primeira corresponde a transição do Logos Planetário da 4.ª para a 5.ª Iniciação Cósmica, Logoidal, do estado de ATLASBEL a ARABEL, da CRUCIFICAÇÃO no seio da Matéria Universal (Prakriti) para a RESSURREIÇÃO no Espírito Universal (Purusha). Esta PASSAGEM da Matéria ao Espírito realiza-se tanto na Divindade, como na Natureza, como no Homem!...

             A nível cosmogónico, a influência cósmica das 12 Hierarquias Criadoras manifestadas pelas 12 constelações do empório zodiacal é determinante, por ser o fundamento celeste de toda a tradição pascal.

             Com efeito, quando o Sol, devido à precessão dos Equinócios, cruzava o equinócio vernal no signo do Touro, fundou-se no Egipto o culto de Ápis, a divindade zoomorfizada no touro alado (TUR-ZIM-MUNI) feito de ouro extraído da mais fina liga química. Mais tarde, Moisés, quando o signo do Carneiro foi ocupado pelo seu equinócio vernal, substituiu o culto bodivo pelo abrahâmico do Cordeiro pascal.

             Quando Jesus nasceu o equinócio vernal estava no quinto grau do signo de Peixes, com Carneiro em exaltação elevando-se ao Sol lenta e majestosamente na eclíptica dos céus. Daí o Cristo ser consignado AGNUS DEI, o Cordeiro de Deus, e DOIS PEIXES (em hebraico, ichthu, cuja sonorização aproxima-se de ioshua, isto é, Jesus) serem o símbolo esotérico e santo-e-senha dos primitivos cristãos. Como memória etnográfica, a própria mitra bispal conserva a forma da cabeça de peixe…

             Jeoshua Ben Pandira, o nome verdadeiro do Jesus bíblico, realmente nasceu durante o Equinócio da Primavera, pela Páscoa hebraica; cumprindo-se a inabalável Lei dos Ciclos por que se rege a Vida Universal, nasceu o pequeno AGNUS ou AGNI, o aguardado Messias, Messiah, o Avatara ou Manifestação directa do Verbo Solar, Quintessência Divina, Akasha ou Éter Universal, Princípio Flogístico subjacente à animação da Natureza inteira, motivo da Tradição Iniciática apelidá-lo prosaicamente de Mar de Fogo, a Grande Fogueira ou Mundo das Causas

             O Solstício do Inverno marca o fim do nono mês (da gestação do Género Humano) contado a partir do início ou nascimento do Ano Astrológico, que se dá em 20/21 de Março com o Sol em Áries. Fecundada a Natureza pelo Astro-Rei (Helius ou Surya) através da impetuosidade e determinação de Marte, é nove meses depois que surge o Filho, o Novo Sol que tomará o lugar do anterior, por outras palavras, o Sol da Meia-Noite (Capris, o Kumara) vem a ser sucedido pelo Sol do Meio-Dia (Áries, o Kartikeya). Sempre a Lei dos Ciclos na perpetuidade da transição ou passagem, factor cósmico celebrado pelos povos através de festividades sazonais.

             Páscoa ou Pesah, em aramaico (a primitiva língua hebraica, originalmente só falada pela classe sacerdotal), significa precisamente Passagem, Trânsito.

             No calendário lunar semita, a Páscoa judaica é realizada no 14.º dia do mês lunar durante o equinócio vernal, a 14 de Nisan, correspondendo ao nosso 6 de Abril, altura da Lua-Cheia do Carneiro, enquanto a Páscoa cristã é celebrada no primeiro domingo após o Plenilúnio (de Peixes) incidindo no Equinócio da Primavera, ou até 28 dias após essa data.

             Enquanto os Levitas celebravam o Cordeiro Pascal, o Cristo levava a efeito o Ágape ou Ceia Eucarística da última comemoração, antes do Calvário!...

             Com essa cerimónia Jesus Cristo confirmou, para o Ciclo de Peixes, o Rito do Santo Graal ou de Melkitsedek, ao impor o Pão e o Vinho Eucarísticos (ou Eu-Crísticos…), a Espiga e a Vide ou o Trigo e a Vinha, a Lei (Lex sed Rex) e a Sabedoria (Sapientia sed Sacerdos).

             O vinho (iain, em hebreu) vem a expressar a bebida da imortalidade, o soma ou sod, significando mistério, consequentemente, torna-se símbolo do Elixir ou Panaceia alquímica, feita da Quintessência da Natureza e logo apartada de qualquer espécie de entorpecente químico, a qual facilita a abertura dos sentidos internos ao Mistério do Mundo Jina, dos Seres Viventes, o qual é mais etérico que denso e onde vibram com a maior intensidade esses mesmos Imortais participes da Divina Glória do CRISTO UNIVERSAL.

             O impacto do sangue humano, a parte mais densa do corpo etérico, com a energia vital do Mundo Vegetal presente no vinho consagrado, destina-se a provocar a dilatação do estado de consciência imediata para tornar possível a comunhão com o estado de consciência interior, com o Cristo Interno, o que vale por Êxtase Espiritual ou Nirvi-Kalpa-Samadhi.

             – ESTE É O MEU SANGUE. TOMAI-O E BEBEI-O!

             O pão é o alimento substancial extraído da espiga dourada, carne fina ou fina camada do Corpo Sacrossanto da Mãe-Terra. Pão, panis, petra, pedra, a Pedra Cúbica da Lei Real assegurada pelo Cristo.

             Se de Pedra Cúbica se trata, ter-se-á então o Cubo Perfeito, porque desdobra-se em seis superfícies iguais formando uma Cruz coroada ao centro pela Quintessência do Cristo, assim possibilitando a PASSAGEM da Crucificação à Ressurreição. É o Vitriol alquímico.

             Tanto a palavra búlgara quanto a russa veuzkressenié e veskressenié, utilizadas pela Igreja Ortodoxa Oriental para designar a Ressurreição, significam exactamente Sair da Cruz.

             – ESTA É A MINHA CARNE. TOMAI-A E COMEI-A!

             Lei e Sabedoria, Rigor e Compaixão, Justiça e Amor, Jairus e Jeffersus, tais são as duas faces Temporal e Espiritual da Instituição e Obra do Sublime Avatara de Piscis, e que a letra d´oiro grega, o Y, assinala… assinalando o próprio ITINERÁRIO DE YO ou IO, a Mónada Peregrina de Jerusalém a Roma, e de Roma a Lisboa e Sintra, na rota certa do Extremo Ocidente do Mundo, buscando o final apoteótico da sua Evolução nas Lavras de Minas Gerais, no Brasil.

             Cosmogonicamente, no drama e tessitura perpetrada neste vasto Sistema de Evolução Planetária, a Páscoa tem a sua realidade no Logos Planetário, o Ego Solar do Globo de cuja Cadeia é Luzeiro, agindo através de sua Alma Lunar que é o Kumara ou Planetário da Ronda, transitando do Plano Mental Cósmico (MAHAT) para o Plano Búdhico Cósmico (ALAYA) de maneira a atingir o estado de Perfeição Absoluta, não só inalcançável como também inconcebível para qualquer criatura humana, e que é o do Integração ou Ressurreição Cósmica no Eterno Oitavo Logos, o Absoluto, assim se tornando um Luzeiro Divino e o seu Corpo ou Planeta Sagrado. Para tal estado se encaminha a Terra e tudo quanto nela vive, a começar pelo Homem, “célula” do Corpo do seu Deus, o Logos Planetário. Razão por que existe a sazonalidade pascal tanto no Céu como na Terra, tanto para Deus como para o Homem!...

             Antropogonicamente, a tradição pascal é rica em detalhes distendendo-se fartamente pela diversificada antropologia dos cultos e religiões do mundo.

             Significativamente, fazendo jus à Lei da Causalidade, a letra P, indicativa de Páscoa, no alfabeto maçónico tem exactamente por hieróglifo o CARNEIRO (Pascal) e é inicial de Puteal, o pedestal sagrado guardião das cinzas das vítimas inocentes tombadas honrosamente ao serviço da Justiça e da Verdade, tal qual o Cordeiro de Deus (Agnus Dei) deixou-se imolar a favor da Redenção Kármica da Humanidade (Agnus Dei qui tollis peccata mundi). Para os maçons, as “vítimas inocentes” estão idealizadas nos puros mas imolados Templários.

             Os primitivos sacerdotes celtas, os druidas da estirpe de RAM, realizavam uma celebração das mais importantes do seu calendário litúrgico, levada a efeito pelo Equinócio da Primavera indo até à Lua-Cheia do Carneiro: a Festa das Flores ou das Colheitas, também chamada das Maias, época em que a Natureza Mãe desperta plena e viçosa do seu longo sono invernal, a qual ainda hoje tem a sua reminiscência na procissão céltico-judaica da Festa dos Tabuleiros em Tomar, antiga Sede Mater da Ordem dos Templários Portugueses.

             RAM designa o FOGO e o CORDEIRO é o seu legítimo representante, é o AGNUS DEI, Cordeiro de Deus, termo semelhante ao AGNI PAROXA, Fogo Sagrado, cujo louvor é também celebrado nesta ocasião pelos brahmanes hindus, a casta sacerdotal da Índia.

             Os próprios religiosos bizantinos e coptas armam uma grande fogueira acesa com círios junto ao Santo Sepulcro, em Jerusalém, cuja tampa ficou como modelo de todas as aras da Cristandade, e aclamam Cristo como Rei Sol (Christus Rex Solis), Luz de todas as luzes (Lux maximus ad luminem).

             Abraão, ou Ab-Ram, Pai temporal de Israel, já que o espiritual é Jacob, ou Yak-Ob, é o mesmo que ofereceu o seu dízimo tributário, como resgate kármico do seu povo, a Melkitsedek, Senhor de Salém, inaugurando o culto do Cordeiro Pascal imolado sobre as achas ardentes da fogueira sagrada, isto porque, segundo o Antigo Testamento, “o nosso Deus é um Fogo Consumidor”.

             João Baptista, o pré-Apóstolo, incarna o Cordeiro Inocente sacrificado, sendo o Cristo o próprio Cordeiro de Deus imolado em prol da Redenção do Mundo. Quando Ele sobe ao Calvário, reproduz humanamente o drama cósmico dos Luzeiros encadeados à crucífera Cadeia da manifestação do Espírito na Matéria.

             É despojado das suas vestes alvas (Vénus) e coberto com um manto escarlate (Marte). Impõem-lhe na cabeça uma coroa de espinhos aguçados (Marte) e põem-lhe entre as mãos o ceptro do escárnio, a cana verde (Saturno). Após O torturarem, obrigam-no a carregar o pesado madeiro da cruz (Terra) até ao Gólgota (Júpiter), onde O crucificaram. Para aliviar-lhe as dores, os carrascos quiseram dar-lhe vinho com mirra (Mercúrio e Vénus), mas Ele recusou. À terceira hora, depois do meio-dia, Cristo despojou-se do corpo e desceu ao interior da Terra (Plutão), ressuscitando ao terceiro dia da Páscoa, em corpo de luz com vestes alvas (Sol em Vénus), sendo Maria Madalena (Lua) a primeira a avistá-lo.

             É mais que altura de findar o culto ao Homem das Dores e Morto (ATLASBEL), pregado no Madeiro do Sacrifício em expressão tamanha de sofrimento, e universalizar o culto ao Homem dos Júbilos e Vivo (ARABEL), isto é, ao Cristo Ressuscitado, Redivivo, finalmente libertado, nesta TRANSIÇÃO da 4.ª para a 5.ª Ronda, do fardo pesado do Karma Humano que carrega por erros nossos e por Seu infinito Amor por todos os seres viventes. Sim, é a Hora da Passagem, da transição do KARMA A DHARMA e, para a realização integral do Espírito Pascal, mister se faz em um e todos o aperfeiçoamento mental e moral a favor da Redenção Espiritual da Humanidade.

             Se bem que o Cristo Crucificado expresse e incarne ao próprio HOMEM DAS DORES, o LOGOS PLANETÁRIO, como foi dito, contudo não há a esquecer que Ele RESSUSCITOU E VIVE por nós e em nós, Humanidade, cabendo-nos a tarefa nobilíssima de sermos dignos de tamanha Graça.

             Se o Natal é a Festa do Recolhimento (como então está recolhida a Natureza sob o manto invernal), a Páscoa é a Festa da Transição, da comunhão das famílias, dos amigos, da reconciliação dos entes desavindos (tal como a Natureza se reconcilia com a Face da Terra em pujança primaveril). Todos vestem roupas novas (os fatos e vestidos feitos para se estrearem na ocasião), como se fosse a eubiótica tomada dum novo e bem viver. Os padrinhos, pais subjectivos ou espirituais, donde paraninfos, promovem as reconciliações dos familiares acasos desavindos e provêem a educação e bem-estar dos afilhados. A Páscoa é a festa dos padrinhos e madrinhas, os promovedores da transição e ligação entre famílias. A ver com isto, tem-se que no Ritual de Passagem de Grau são dois padrinhos quem levam o neófito ao Altar da Iniciação.

             Durante a fase luni-solar do Carneiro (RAM) os povos antigos trocavam entre si, como sinal de amizade e boa sorte, ovos coloridos pintados, representando o Espírito da Primavera, e assim nasceu a tradição dos célebres “ovos da Páscoa” que se oferecem nesta data, permuta ou transacção em voga entre cristãos, judeus e árabes.

             Com efeito, as tradições populares trazem em seu imo de boa-vontade e confraternidade símbolos diversos pertencentes à Tradição Iniciática, perpetuando-os no bojo da sua comum mas sã simplicidade. É o caso dos ovos, dos coelhos, das amêndoas e do bolo tradicional da época, o folar. Falemos um pouco deles, regressando ao tema do ovo.

             Fisiologicamente, o ovo é uma célula reprodutora original, resultante da fusão numa só das células masculina e feminina. Tradicionalmente é considerado como símbolo da SEMENTE (o Bijam) engendradora dum novo ciclo ou dum novo ser, macho-fêmea ao início, donde os antigos egípcios usarem o termo Ovo Alado para designar o estado primordial do Andrógino, do que transitou do estado Humano para o Divino. Aproximadamente nesta época, os ovos pintados eram vistos pendentes na entrada dos templos egípcios, como ainda se vêem em algumas sinagogas judaicas e em certas mesquitas muçulmanas.

             Sobre este assunto dos símbolos pascais que o mundo religioso ocidental universalizou, o Professor Henrique José de Souza teve ocasião de escrever (Carta-Revelação de 13.04.1963, Cristianismo, Budismo e Teosofia Eubiótica):

             Leiam a Minha Mensagem ao Mundo Espiritualista, a parte que se refere ao CRISTIANISMO, e se encontrará tudo a respeito da Quaresma... e outras coisas mais, inclusive que amanhã sendo Domingo de PÁSCOA, o Cristianismo o copiou, como tudo o mais... da Deusa AESTER escandinava, “quando se distribuía OVOS enormes entre os adeptos da sua religião”. Hoje, “OVOS DE PÁSCOA”. Do mesmo modo que das fogueiras erguidas ao Deus Baco, das colheitas da UVA, o Cristianismo copiou as fogueiras de S. João, valha a nossa Obra que nascendo nessa noite... pertence a todas as religiões, a todas as tradições.”

             Acerca do bolo folar (corruptela de furar, furo, com o sentido esotérico de aquilo que se inicia como Centro Primordial de Actividade, o chamado Centro Laya tanto no Homem, como no Globo ou no Universo), o seu formato mais comum é o de um círculo aberto ao centro, símbolo do SOL, expressão da própria Divindade Primordial. Neste sentido de Luz, tem-se que decompondo a palavra folar com as suas cinco letras compõe-se aquela outra FAROL, o que ilumina. Como o folar contém dentro dois ovos cozidos, cada qual assinalando um sexo, comê-lo é comparticipar, mesmo que inconscientemente, na alegria da mesa e no calor da família, do androginismo familiar (pai-mãe juntos), tão bem expresso no saudável convívio pascal.

             Os “coelhinhos doces” remetem para a lebre lunar, por «acaso» totem zoomórfico de Sintra no Período Atlante. A lebre ou coelho selvagem representa a Força Reprodutora da Mãe-Terra, a Fecundidade, o que se enquadra perfeitamente no Espírito da Primavera sob o impulso fogoso do Carneiro, indo a Páscoa enquadrar-se no seu prolongamento que é a Páscoa Rosada, pelo Pentecostes, quando então se realiza um Festejo exclusivamente Português: a Festa Popular do Império do Divino Espírito Santo, apontando para o V Império Universal das Almas Salvas ou Integradas ao 5.º Reino Espiritual, imediato ao Humano.

             Quanto à amêndoa, o seu significado é deveras aliciante e sugestivo. Existem três tipos de amêndoas, os quais representam esotericamente os três aspectos do Homem:

             Amêndoa da casca rija           Espírito

             Amêndoa de casca mole        Alma

             Amêndoa amarga ou brava    Corpo

             Sendo uma oleaginosa, a amêndoa vai juntar-se ao vinho (Mercúrio) e ao pão (Sal) como Sulfur ou Enxofre, completando a trindade alquímica e litúrgica, já que oleaginoso é o óleo santo.

             A palavra hebraica Luz tem ordinariamente o sentido de amêndoa (e também de amendoeira, por extensão designando tanto a árvore florida de branco como o seu fruto) ou de caroço; ora o caroço é o que há de mais interior ou mais oculto e está completamente inacessível, assim dando a ideia de inacessibilidade que vai se encontrar no nome AGHARTA, o Centro Supremo de Iniciação na Terra, oculto à vista dos profanos despreparados, porque no seio mesmo da Terra está, tal qual o caroço se encontra dentro da casca da amêndoa.

             É por essa ideia de inviolabilidade que a amendoeira, de brancas e perfumadas flores, é tomada como símbolo da Virgem, que como sexto eixo do Zodíaco (Virgem-Peixes) é o do Sacrifício: o duro trabalho dos pais pelos filhos, a devoção dos médicos e enfermeiras pelos doentes nos hospitais (Virgem), e a abnegação dos Santos e Sábios em salvar as almas humanas (Peixes).

             No Homem, a Luz situa-se na extremidade inferior da coluna vertebral e relaciona-se com a Energia Electromagnética da Terra, ou seja, Kundalini. Curioso, ou não tanto, ser o Algarve a “terra das amendoeiras” e estar situado na extremidade inferior de Portugal, possuindo o termo Algarve, do árabe Al-Garb, o expressivo significado de onde nasce a Luz, tal como Kundalini tem por símbolo a amêndoa assinalando a Ressurreição.

             Festejamos hoje a Páscoa Portuguesa, a Páscoa Universal, homenageando o Menino Agni através da figura magnânime de Jeoshua Ben Pandira, o Cristo, que nasceu em Belém e qual Estrela Cadente de misteriosa ventura fez o curso do Santo Graal até ao Gólgota, onde soltou uma risada na figura da Morte impotente da Sua Ressurreição.

             Jesus nasceu em Beith-Lehem ou Belém, a Casa do Pão, cujo nome original, ao tempo de Jacob, era Lusa, a Casa da Luz, porque erigida com pedra sagrada pelos Anjos. Ele, Jesus Cristo, transformou a Pedra Sagrada do Santo Graal em Pão Substancial contido no mesmo, destinado a nutrir a todos os homens de boa-vontade, Pão ázimo ou Maná celeste esse celebrado e tragado a cada Páscoa que passa, solidificando a Fraternidade e a Passagem ou Ponte entre o Homem e Deus.

             Três festejos tradicionais levam à apoteose da Pesah: o Natal, que é o nascimento da criatura humana; o Carnaval, que é o encontro da criatura impúbere com o mundo sensorial e passional; a Quaresma, como fase amadurecida de reflexão e decisão, para finalmente advir a Páscoa, onde acontecerá a derradeira passagem ao Divino, cuja confirmação ou identificação far-se-á pelo São João.

             Ora as sete semanas da Quaresma, antecipando a Páscoa, estão assinaladas nas sete dores da Virgem Maria, que Laurentus (pseudónimo do Professor Henrique José de Souza, in Ocultismo e Teosofia) assim descreve:

             As sete espadas (ou dores) da Virgem Maria”, atravessadas no seu coração, representam as sete Raças Cósmicas, estados de consciência, e até as sete Plêiades, como “Amas, Mamas, Marias ou “Mães do Guerreiro Karttikeya” (o mesmo Maitreya, etc.), que receberam o nome de Krittikas nas Escrituras Orientais. A Igreja preferiu concebê-las como as “sete semanas da Quaresma”, dando-lhes os seguintes nomes: ANA, BAGANA, REBECA, SUSANA, LÁZARO, RAMOS e PÁSCOA. Em forma de verso:

             Ana, Bagana,

             Rebeca, Susana,

             Lázaro, Ramos,

             Na Páscoa estamos.

             Em última análise, a celebração da Páscoa, conforme o calendário litúrgico, é tanto dupla como quadrupla. Com efeito, se a Quaresma é a reflexão sobre a Morte (1.ª fase da Páscoa), a Páscoa será o entendimento sobre a Ressurreição (2.ª fase da Páscoa), acontecendo a absorção no Divino pelo São João, no final das Maias. Aqui, mais uma vez, entra o tema da Festa Popular do Império do Divino. Este, em si, baseia-se no triteísmo paraclético de Joaquim de Flora sobre os Tempos do Mundo: as Idades do Pai, do Filho e do Espírito Santo, as quais veladamente enquadram-se nos respectivos Espíritos do Natal, da Páscoa e do São João, neste último sendo a Virgem Divina carregando no regaço o Seu Divino Filho, aclamados apoteoticamente a Parúsia realizada e assim marcando o final da Evolução com a Integração do Homem em Deus e Deus no Homem, no mais Perfeito Equilíbrio Universal, na mais Justa e Perfeita Metástase Avatárica.

             Assim, a Páscoa é o anúncio da Lux Gloriam do crepúsculo do Tempo da Humanidade, a cada ano que passa, para a passagem, se bem que estreita, sublime, à aurora do Tempo da Divindade, vindo justificar ser sempre o FOGO A RENOVAR A NATUREZA INTEIRA (I.N.R.I.), sigla iniciática plena de sentidos velados que alguém escreveu numa tabuleta que pregou na Cruz do Gólgota, tanto valendo por Monte da Páscoa: IGNIS NATURA RENOVATUR INTEGRA.

             Glória, pois, muita Glória ao Menino Agni que nasce e se renova a cada ciclo que transcorre no esteiro da Vida infinita, imorredoura, em que só as estrelas só fronteiras para estágios ainda mais soberbos.

 



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