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Entrevistas e Reportagens
 Forum Lusophia : Entrevistas e Reportagens
Assunto Tópico: SEGUINDO O CAMINHO DE D. FERNANDO II Nova mensagemNovo tópico
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Colocado: 2005 - 17 - Maio às 12:12 | IP Ligado Citar admin

SEGUINDO O CAMINHO DE D. FERNANDO II NA DEMANDA DO SANTO Graal

(PARTE I)

(REPORTAGEM DE VICTOR MENDANHA IN "CORREIO DA MANHÃ", 5.1.1986)

    O príncipe alemão de Saxe-Coburgo Gotha que, como marido da nossa rainha D. Maria II, foi rei de Portugal com o nome de D. Fernando II, era um alto Iniciado a quem o País muito ficou devendo no aspecto cultural e na defesa da Tradição pátria, legando-nos uma verdadeira reconstituição do mito de Parsifal na Serra de Sintra.

    Esta lenda, já no presente século musicada por Wagner, é pertença da cultura nórdica e as suas origens prendem-se ao mistério que envolve a infância da própria Raça Humana.

    Apenas dois anos após a sua chegada a Portugal, D. Fernando adquiriu, em hasta pública, o antigo e degradado mosteiro dos monges de S. Jerónimo, chamado Nossa Senhora da Penha, situado na Serra de Sintra, de onde o nosso rei D. Manuel I, o que nos parece pormenor importante, vira chegar ao Tejo o navio de Nicolau Coelho que trazia a notícia da descoberta do caminho marítimo para a Índia pela esquadra de Vasco da Gama...

    Desse convento em mau estado e nos terrenos circundantes, pois comprou igualmente o castelo dos Mouros, fez D. Fernando II uma reconstituição impressionante da lenda de Parsifal e do caminho a seguir para a conquista do Graal.


ELE PERTENCIA A UMA FAMÍLIA MUITO ESPECIAL


    Mas quem era este homem, nascido em Coburgo no ano de 1816 e falecido na cidade de Lisboa, em 1885, filho do príncipe alemão Fernando Jorge Augusto, com uma vida tão insólita para a época que acabou por confundir o pensamento que a seu respeito faziam liberais e absolutistas?

    Sigamos o fio desta meada juntando pormenores desconhecidos pela maior parte do público leitor, iniciando a investigação por quanto nos entendeu poder dizer o pesquisador Vitor Adrião, o qual lembrou a respeito da Casa Real de onde D. Fernando II era originário:

    - É extremamente curioso verificar-se, nos anais históricos da Europa, que em cada trono deste continente, até há dezenas de anos atrás, se encontrava um Saxe-Coburgo Gotha. Sabemos que a família desse príncipe era protegida, em segredo, por todas as Sociedades Iniciáticas. Além disso, por se tratar de uma família real, também tem o apoio do clero. É ela que, em todas as revoluções progressistas da Europa desde a Renascença europeia, tem a permissão de dar "o primeiro tiro de canhão maçónico". Assim sucedeu várias vezes, como na Revolução Rosacruz, no século XVI, em Paris; na conversão da Alemanha ao Protestantismo, em que Lutero é protegido pelos soldados do Eleitor de Saxe; na tomada da Bastilha; ou nas lutas entre liberais e conservadores em Portugal.

    Num país em degradação geral, conforme Portugal se encontrava na altura, D. Fernando II funda a Academia Real das Belas-Artes em Outubro de 1836 e, com verbas tiradas à sua fortuna pessoal, facultou a esta Academia a possibilidade de adquirir nada menos do que 83 quadros e formar, deste modo, a primeira Galeria Nacional de Pintura de Lisboa.

Actualmente, uma parte das obras nacionais e estrangeiras, compradas por essa altura, pode ser admirada no Museu Nacional de Arte Antiga, conforme garante o catálogo deste museu.

    A explicação de semelhante impulso para as artes, por parte de D. Fernando II, deve encontrar-se possivelmente na própria opinião de Wagner quando o compositor escreve, no seu livro "Religião e Arte":

    Podemos afirmar que, onde a religião desfalece, fica reservada à arte um papel de intervenção para salvação do espírito religioso, como consequência do reconhecimento do valor figurativo do símbolo mítico que o culto tinha desejado fazer apreender, no sentido literal.

    E como o verdadeiro espírito religioso se encontrava desfalecido em Portugal, nesses conturbados anos do século passado...


SALVOU A BATALHA E A CUSTÓDIA DE BELÉM

    Em Novembro de 1836 D. Fernando II visita, pela primeira vez, o Mosteiro da Batalha e  vai encontrá-lo em ruína não só devido aos estragos provocados pelas invasões francesas como, principalmente, por a ignorância de alguns portugueses fazer daquele símbolo arquitectónico da essência da própria Pátria portuguesa uma pedreira de onde retiravam as centenárias pedras para a construção de casas das povoações mais próximas.

    Se não fossem as grandes obras que, de imediato, mandou fazer e as medidas de defesa que entendeu, em boa hora, tomar, não teria chegado, são e salvo, até aos nossos dias, este esplêndido e tão significativo monumento.

    A Custódia de Belém, jóia lavrada por mestre Gil Vicente em 1506, com o ouro que Vasco da Gama trouxe da Índia, o mais extraordinário monumento de ourivesaria gótica, foi igualmente salva por D. Fernando II de um desaparecimento puro e simples.

    Durante uma visita por si efectuada à Casa da Moeda, em Lisboa, perante a surpresa de quantos dignitários o acompanhavam, insistiu para que abrissem um armário onde, disseram-lhe, se encontravam arrecadadas apenas peças de ouro e prata, sem valor histórico, para derreter.
    Alguns dos presentes pensaram, por certo, tratar-se de mais uma "minhoquice" do soberano, mas todos abriram a boca de espanto quando se verificou encontrar-se lá, também, pronta a ser derretida, misturada com pedaços de fios e anéis sem muita importância, a Custódia de Belém...

    - D. Fernando tanto simboliza o próprio Mago Merlin como Sir Lancelot du Lac que viria da Austro-Hungria, da Baviera mais propriamente, pondo a sua espada do saber ao serviço da Santa Távola e vencendo todos os "dragões" da oposição social e religiosa, em nome daquela Sabedoria Eterna que torna o Iniciado um Homem só e inédito. - diz-nos o investigador Vitor Adrião, acrescentando - Conhecedor profundo dos Ritos Maçónicos, este rei apenas conseguiu dois simples votos, aquando das eleições presidenciais no Grande Oriente Lusitano, levadas a efeito na sua época. Mas quem teria sido ousado e cego ao ponto de votar no próprio Grão-Mestre Secreto da Maçonaria Lusitana? Desde quando Deus necessita de votos para afirmar a Sua divindade?

    Poder-se-á, assim, entender mais um facto insólito da sua vida, aqui lembrado em poucas palavras:

    Por inerência do cargo real era D. Fernando II, igualmente, marechal-general das Forças Armadas portuguesas, só que a sua carreira militar chegou ao fim em 1851, durante o chamado movimento da Regeneração. Nessa altura teve de marchar sobre a cidade de Coimbra, à frente de uma divisão do exército, para combater a sublevação do marechal Saldanha, mas como sabia que o povo, e parte da tropa, eram favoráveis ao movimento procurou demorar o avanço das suas tropas sobre Coimbra, embora estas fossem superiores em número. Quando chegou à cidade do Mondego entendeu ser mais útil dialogar com os revoltosos em vez de mandar abrir fogo contra eles, evitando derramamento de sangue entre portugueses.

    Ao verificar existir apoio popular significativo a favor dos revoltosos o rei ordenou, pura e simplesmente, a retirada para Lisboa...


LENDA OCULTA RECRIADA EM SINTRA

    Foi, no entanto, na transformação da zona oriental da Serra de Sintra que D. Fernando II evidenciou não só a grande sensibilidade artística, devido à qual subsidiou, pessoalmente, bolsas de estudo em Paris a Columbano Bordalo Pinheiro e na Alemanha a Viana da Mota, como principalmente os seus grandes conhecimentos esotéricos, só reservados aos Iniciados.

    Encarregou um engenheiro militar alemão, igualmente conhecedor de alguns princípios ocultos, o barão Eschwege, de edificar o Palácio da Pena sobre o antigo mosteiro dos frades Jerónimos. Com este trabalhou outro ocultista português, o arquitecto Possidónio da Silva.

O palácio evidencia uma ligação arquitectónica perfeita entre os estilos ocidental e oriental, o mesmo objectivo dos Templários mas sob o ponto de vista espiritual, pormenor evidente mesmo para qualquer leigo que o visite com os olhos capazes de verem os maiores e mais evidentes pormenores.

    O investigador Vitor Adrião não se escusou, até, a referir acerca disso:

    - O Palácio da Penha representaria o Graal-Livro, Graal ou Gradualis, a conquista gradual, entre outros significados que não nos é lícito citar, cuja arquitectura de invulgar significado e beleza exótica, para uns, esotérica para outros, prova que aí, uma vez mais, D. Fernando de  Saxe-Coburgo Gotha tentou o mesmo que D. Manuel I, D. João I e até D. João II, mesmo com este não gostando de Sintra: unir pela Ciência Arquitectónica o Oriente islâmico ao Ocidente cristão.

    Artista, cantor, desenhador, pintor, gravador e ceramista, mecenas de muitos artistas, passeador das ruas de Lisboa que calcorreava a pé e parando aqui e ali para falar com os populares, D. Fernando II nunca foi verdadeiramente compreendido pela maioria dos seus súbditos, aliás o que acontece com todos os Iniciados.

    Inclusivamente chamavam-lhe, entre familiar e depreciativamente, de Zé Nabo, devido ao seu carácter aparentemente ingénuo e pacífico, também por não usar barba quando chegou a Portugal...

    Mas nem toda a Europa manifestou indiferença perante as verdadeiras qualidades deste alemão, soberano de Portugal: em 1862 a Grécia pretendera oferecer-lhe o trono e em 1868 coube a vez aos espanhóis de lhe pedirem para ser seu rei.

    No primeiro caso não aceitou e, quanto ao segundo, impôs condições entre as quais a de nunca se constituir, simultaneamente, como soberano dos dois reinos. Durante vários anos ainda insistiram os espanhóis na ideia e apenas desistiram dela devido à intransigência declarada do nosso monarca.

    Quem, hoje, percorre a Serra de Sintra, por certos caminhos, à descoberta da obra arquitectónica de D. Fernando II, como o Palácio da Pena, o parque luxuriante, a Cruz Alta, a insólita estátua do Guerreiro com a cópia da Lança que trespassou o corpo físico de Cristo segura na mão direita, além de outros pormenores iniciáticos importantes para a compreensão do valor do simbolismo perante a Vida, não duvidará do grande avanço que o príncipe de Saxe-Coburgo Gotha possuía no Caminho sobre aqueles que o apelidavam de Zé Nabo.

    No próximo trabalho sobre este tema tentaremos aprofundar ainda mais a vida oculta do soberano e a própria Serra de Sintra, local para onde, frequentemente, ele se retirava.


ADENDO

    A lenda de Parsifal conta-nos que Titurel, por mandado de um enviado de Deus, construíra um Castelo sobre o Monte Salvat, para guardar o Cálice ou Graal com que Cristo celebrou a última Ceia, e a Lança que trespassou o lado do Redentor.

    Este Castelo tornou-se num Centro de onde se projectavam, sobre o mundo exterior, poderosas influências espirituais.

    Mas um cavaleiro negro, chamado Klingsor, pretendeu entrar no Reduto Sagrado, facto que Titurel impediu. Então Klingsor construiu um jardim mágico, povoado de jovens belas, com a finalidade de seduzir os cavaleiros que por ali passavam na procura do Graal, pois o jardim ficava no caminho do Castelo de Monte Salvat.

    Bem poucos cavaleiros escaparam à sedução e Titurel entregou a guarda do Graal e da Lança ao seu filho Amfortas que tomou a decisão de enfrentar o mágico negro Klingsor,    armando-se com a Santa Lança.

    Só que o cavaleiro negro mandou uma mulher muito bela, chamada Kundry, que tentou Amfortas e este deixou cair a Lança quando a abraçava.

    Então surgiu Klingsor que desferiu em Amfortas um golpe à traição, fazendo uma ferida no corpo do filho de Titurel, ferida que não cicatrizou, ficando ainda por cima senhor da Lança.

Amfortas, a partir dessa data, não podia efectuar a Cerimónia do Graal pois sempre que a efectuava a ferida abria-se e as dores tornavam-se terrivelmente cruéis, mas um dia apareceu no Castelo de Monte Salvat "um louco de coração puro", afinal um Zé Nabo como D. Fernando II, chamado Parsifal, que sente pena do ferido e resolve enfrentar Klingsor.

    Só que, mais uma vez, Kundry surge em primeiro lugar, para seduzir o jovem Parsifal como, aliás, já o fizera com Amfortas.

    Só que Parsifal, ao ser abraçado pela bela mulher, sente no seu próprio corpo as dores provocadas pelo ferida de Amfortas e resiste à tentação.

    Kundry declara-se vencida e chama o mago negro em seu socorro, o qual aparece de Lança em riste. Mas o jovem guerreiro, porém, é inocente e puro, o qual faz com que a Lança não o atinja e o castelo e os jardins de Klingsor se desmoronem com grande ruído.

    Parsifal volta a Monte Salvat com Kundry, agora desencantada da submissão ao mago negro, cura Amfortas tocando-o com a Lança e toma para si a responsabilidade de guarda do Graal e da Lança Sagrada.

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