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SEGUINDO O CAMINHO DE D. FERNANDO II
NA DEMANDA DO SANTO Graal
(PARTE II)
(REPORTAGEM DE VICTOR MENDANHA IN "CORREIO DA MANHÃ", 6.1.1986)
A Serra de Sintra possui aquilo que se pode chamar
um Palácio Encantado, mandado construir pelo príncipe alemão de
Saxe-Coburgo Gotha quando foi rei de Portugal com o nome de D. Fernando
II, no qual este soberano uniu os estilos da arquitectura ocidental e
da arquitectura oriental, possuindo um simbolismo muito mais profundo
que a visão das simples formas materiais poderá deixar presumir,
conforme a opinião de alguns investigadores.
Foi o barão Eschwege quem planeou a obra, cujos
trabalhos se desenvolveram desde 1839 a 1849 e nos quais estiveram
empenhados cem operários especializados mais cinquenta serventes,
criando-se até uma escola de artífices que incrementou, posteriormente,
a construção de outros palácios em estilo semelhante no País.
Mas, tendo como centro o edifício principal, o
monarca de origem alemã recriou na Serra de Sintra a lenda de Parsifal,
quer com o erguer da chamada Cruz Alta, quer com a estátua do Guerreiro
e outras edificações menos conhecidas mas tão importantes como aquelas.
Já antes delas a Serra de Sintra possuía um património religioso e
histórico ímpar e todo este conjunto de símbolos, ligados à lenda do
Graal, são abordados nesta entrevista com o investigador Vitor Adrião
para quem a História da Serra e do rei D. Fernando II vai muito para
além dos factos considerados pertencentes à História profana.
Aqui deixamos os leitores com ele, nesta procura de
um Caminho cujo trajecto segue por detrás dos conhecidos cenários do
Teatro da Vida.
EM PORTUGAL O GRAAL NÃO SE EXTINGUIU
CM - Muitos investigadores consideram que o Palácio da Penha, que se
deve a D. Fernando II, simboliza a lenda do Graal. Está você de acordo
com esta afirmação?
VA - O Palácio da Penha foi, é e continuará a ser, para as gerações
vindouras, o símbolo vivo provando que o Graal não se extinguiu e que
Portugal é, ainda, o Santuário da Iniciação da Europa a caminho das
sociedades futuras. De nada serve demandar o Saber no Oriente longínquo
espiritualmente já cumprido ou nas Américas espiritualmente por
cumprir, já que o Futuro do Ocidente está sendo tecido aqui, agora, em
Terras Lusas com o Sangue Português na razão de "Mors e Amor", ou Amor
e Morte, esta última no sentido de renascimento, transformação e
expansão.
Parte ínfima e bem parcial da leitura teúrgica da
Serra de Sintra, o Monte da Salvação, está feita. Resta-nos, quanto
antes, iniciar a Demanda do Santo Graal e, encontrando-O, encontramos a
nós próprios, a razão profunda de sermos uma chispa integrante do Mar
de Fogo Universal, essa mesma Substância Eterna e Infinita.
CM - O Palácio da Pena está repleto de símbolos arquitectónicos. Entre
eles sobressai uma figura enorme, metade homem e metade peixe, de
semblante horrível e localizada sob uma das janelas principais. Que
significado tem?
VA - A figura neptuniana do Tritão, o dragão marinho da longínqua
Cadeia Lunar, além de, e por ser uma figura do Passado, designar o
Guardião do Umbral, representa o rei Klingsor do "Titurel", o cavaleiro
negro opondo-se ao cavaleiro branco do Graal, Parsifal, que se deverá
bater com ele, numa peleja mortal, e vencê-lo. Ou seja: aniquilar os
seus próprios instintos e pensamentos animais ou anímicos. Só
derrotando o Guardião tenebroso poderá passar além do Portal das
Tormentas e entrar na Luz da Suprema Realização, tornando-se o próprio
Graal.
PERCORRENDO OS CAMINHOS DE PARSIFAL
CM - Além do Palácio, e nas suas redondezas, o rei mandou edificar
outras construções, como a Cruz Alta. O que significa a Cruz Alta
dentro de todo o conjunto arquitectónico?
VM - Dentro dos jardins do Palácio da Penha, nome significando "Pedra
Bendita", encontra-se a Cruz Alta, o ponto mais alto da Serra, e isto
por isto o "Pico do Graal". A Cruz Alta primitiva, datada de 1522, foi
mutilada por um raio e substituída depois por D. Fernando II. Aí,
segundo a Tradição do Graal, "o Cristo passou pela última vez, ligando
o Céu à Terra". Os nós da Cruz designam a Via Seca, o Caminho do Fogo
Purificador do Espírito Santo, a Via Guerreira do Santo Cavaleiro, que
é Teúrgico, que é Alquimista, que é - relembrando, por exemplo, a
figura enigmática do Santo Condestável Nuno Álvares Pereira - o S. João
Anunciador ou Yokanan da Ínclita Geração.
CM - Poucas pessoas conhecem a estátua do Guerreiro, bem perto da Cruz
Alta e sobre outra grande elevação. Ele apresenta-se com uma lança na
mão e foi mandada construir, também, por D. Fernando II de Saxe-Coburgo
Gotha, família real protegida por todas as Escolas Iniciáticas. Terá o
Guerreiro, igualmente, um simbolismo oculto?
VA - Mais abaixo da Cruz Alta, na verdade, situa-se o Penedo do
Gigante, no meio da Mata do Ferreiro, com a estátua do Arquitecto - o
Grande Arquitecto do Universo - também conhecido por Guerreiro, que se
diz ser a estátua do próprio barão de Eschwege, o construtor do
palácio. A estátua esteve à entrada do palácio durante alguns anos mas
depois foi mandada colocar sobre o Penedo do Gigante por D. Fernando II
e por motivos que este rei, como Iniciado, bem sabia quais. A Teurgia
considera a estátua como o próprio S. Jorge o Senhor da Espada, aliás
patente num vitral do palácio, assente sobre um aglomerado rochoso com
o formato de uma rosácea fechada.
CM - Na mesma zona e mata o observador atento poderá descobrir um poço
muito antigo e uma mesa cuja serventia não nos parece ser a de servir
de apoio aos turistas, até porque aqueles caminhos da serra não são
caminhos de turismo por não ser fácil percorrê-los...
VA - Essa mesa relembra-nos, até por se encontrar rodeada por um
assento em ferradura, a Mesa Mágica da Távola Redonda, em torno qual
estavam os 14 lugares, um deles sempre vago, o Trono do Altíssimo, que
decerto virá a ser ocupado, num porvir breve, pelo Guerreiro, o Graal
humanizado...
ELES UNIRAM A MENTE HUMANA À UNIVERSAL
CM - O rei Iniciado D. Fernando II mandou erguer o Palácio da Pena
sobre um antigo e arruinado convento dos frades Jerónimos. Existem, na
serra, outros locais onde os frades Jerónimos tivessem vivido?
VA - Perto dos locais de que acabámos de falar encontra-se o Alto de
Santa Catarina e próximo deste monte podemos encontrar a Gruta do
Monge, caverna natural remodelada para ser refúgio dos freires
Jerónimos - nome que provém de Gerom ou Hieron, Hiero-nimos - os que
uniram a mente humana à Mente Universal. Trata-se de um local
extremamente pitoresco. Interpretando esse facto à luz do "Titurel",
diríamos que os freires Jerónimos são os candidatos aguardando a
entrada no Castelo do Santo Graal, fazendo um período de retiro
espiritual... antes de serem retirados da Face da Terra.
CM - Alguns investigadores garantem que as elevações de terreno do
Palácio, da Cruz Alta e do Guerreiro, são os vértices de um triângulo
absolutamente equilátero. Tem a mesma opinião?
VA - A Cruz Alta, o Guerreiro e o Palácio formam, entre si,
precisamente um triângulo ou Delta Teúrgico. Mas onde poderemos
encontrar o Olho Espiritual que ornamenta o centro do símbolo?
Precisamente no Alto de santo António, onde se ergue um pavilhão
oriental, mandado construir por D. Fernando II em volta de uma capela
circular daquela evocação com quatro nichos dentro, formando quadrado,
logo a "quadratura do círculo", e por cima o selo com a Cruz de Cristo,
vermelha, mas sobreposta exteriormente pelo signo verde do Islão.
António é nome sugerindo-nos o termo egípcio Akenaton, o Mensageiro dos
Céus e cerne da Tradição Solar Ocidental que teve o seu início Ariano
no Egipto pós-Atlante.
CM - Não será difícil concluir, agora, encontrar-se a Serra de Sintra
relacionada, pelo menos simbolicamente, com a chamada Demanda do Santo
Graal. Poderá referir-se, mais claramente, a este facto?
VA - A Demanda do Santo Graal dos Cavaleiros da Távola Redonda do Rei
Artur, encontra-se intimamente ligada a Sintra por via da temática
deográfica de Mons Salvat ou o Monte da Salvação, para nós a própria
Serra Sagrada de Sintra, sendo agora altura de recordarmos uma
significativa passagem da Lenda de Parsifal, incorporada musicalmente à
Ópera Iniciática de Richard Wagner. Gurnemanz, o mais idoso dos
Cavaleiros do Graal, conta: "Na tarde em que Nosso Senhor e salvador
Jesus Cristo celebrou a sua última ceia com os Seus discípulos, bebeu o
vinho por um cálice que, mais tarde, José de Arimateia usou para
recolher o sangue vivificante que brotava de um dos lados do Redentor.
José de Arimateia guardou, igualmente, a lança ensanguentada, e
conservou estas relíquias consigo, através de imensos perigos e
perseguições. Enfim, os Anjos o guardaram até que, certa noite, um
mensageiro místico enviado por Deus apareceu a Titurel, pai de
Amfortas, ordenando-lhe que fizesse construir um castelo que servisse
de abrigo às santas relíquias. Assim se veio a construir, sobre uma
alta montanha, o castelo de Monte Salvat onde se guardaram os sagrados
tesouros, sob a vigilância de Titurel e de uma companhia de santos e
castos cavaleiros"...
A MONTANHA TAMBÉM É UM SER VIVO
CM - Sabendo-se que a Tradição nos fala no Graal Taça, no Graal Pedra e
no Graal Livro, onde localizaríamos na Serra de Sintra, e
simbolicamente, o Graal Pedra?
VA - O Graal pedra, ou Ara Santificada, encontra-se no Monte de Santa
Eufêmia, a Boa-Fêmea ou Boa-Mãe, onde foi erigido no passado remoto o
templo atlante dedicado à Lua e onde fica situada, actualmente, uma
ermida românica, no século XVII mandada erigir por um cavaleiro
francês, dedicada a Santa Eufêmia da Serra devido ás aparições aí da
Santa, junto a uma fonte - hoje gradeada e seca - cuja água era
considerada milagrosa no tratamento de várias doenças. Santa Eufêmia é
considerado o ponto mais remotamente habitado na região de Sintra,
dedicando a ele vários trabalhos exaustivos o arqueólogo Félix Alves
Pereira.
CM - E o Graal Taça, onde o localiza você?
VA - Nesta peregrinação pelo "jardim do Paraíso", como lhe chamava Gil
Vicente que foi o pai do Teatro ibérico, encontramos o Graal Taça no
encantador, cheio de fascínio e misterioso Castelo dos Maurus ou
Mouros, a quem o Professor Henrique José de Souza apelidava,
significativa e respeitosamente, de "Pico do Graal", inserto no espaço
daquele outro ou mesmo da Cruz Alta. Permita-me acrescentar que a
tomada do castelo, em 1147, pelas tropas de Afonso Henriques, após 17
semanas de cerco violento e com rendição da sua guarnição, é pura
fábula! Não duvidamos que, ao princípio, não tivessem acontecido
algumas escaramuças entre as duas forças, mas a verdade é que houve um
contrato entre a moirama e o rei cristão, permitindo este que os Maurus
ou casta sacerdotal islâmica se escapasse pelas galerias subterrâneas
do castelo sem correrem o risco das tropas cristãs, analfabetas e
supersticiosas, lhes fazerem algum mal, contrariando a vontade do seu
rei. Só depois o vizir entregou, pacificamente, as chaves do
Castelo-Santuário a Afonso Henriques, Rei autocoroado e Grão-Mestre
Fundador da Ordem de Aviz.
CM - O primeiro rei de Portugal deixou, na Serra de Sintra, algum rasto arquitectónico da sua acção como condutor do seu povo?
VA - Afonso Henriques, El Rike ou Al Rishi, o Condutor Justo e Perfeito
de seu Povo, ergueu em Sintra quatro templos: um dedicado a S. Pedro ou
a Pedra Angular da Ordem do Santo Graal vinculada aos Maurus ou
Marizes, aproveitando a antiga mesquita do castelo dedicada a Fátima,
quinta filha de Maometh; um outro dedicado a Santa Maria da Conceição,
símbolo da Imaculada Conceição ou Concepção Alquímica; outro dedicado a
S. Miguel, o "Solis Invictus", e por fim o quarto, este consagrado a S.
Martinho ou Marte, o deus da Guerra e das Forças Telúricas ou
Luciferinas da Mãe-Terra.
CM - A forma física da Serra de Sintra também possui o seu quê de
estranho pois pode considerar-se, para quem a vê de avião, como
algo que ali foi posto, no meio de uma grande planície, por mão
invisível e ciclópica...
VA - A razão de Sintra ser uma lomba distendendo-se até ao mar,
terminando abruptamente no Cabo da Roca ou Rocha, denominado por povos
tão antigos como os fenícios, iberos, celtas, árabes, etc., de
"Promontório da Lua", deve-se à grande tragédia geológica e final da
Atlântida, sofrendo a geografia dos continentes profundas e
significativas alterações.
Com isto pretendemos dizer que não só desde que o
Rosacruzista e poeta iluminado Lord Eduard Byron lhe chamou "Éden
glorioso", Sintra é uma Montanha Sagrada, isto segundo esquecidas
lendas e tradições que são reavivadas pela interpretação e leitura da
Mítica Sintrense que escapa à maior parte dos passeantes profanos e
inconscientes para a realidade do Ser Vivo que é, afinal, a Montanha.
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