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 Forum Lusophia : Textos Diversos
Assunto Tópico: O MISTÉRIO DA “BOCA DO INFERNO” Nova mensagemNovo tópico
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Colocado: 2006 - 05 - Abril às 17:12 | IP Ligado Citar admin

O MISTÉRIO DA “BOCA DO INFERNO”

Vitor manuel adrião

    No domínio dos Iniciados, sempre movediço e até contraditório aos olhos dum profano, dão-se acontecimentos que, “por descuido ou intenção” (quiçá...), chegam ao conhecimento do “grande público”.

    Foi o que aconteceu em finais de Outubro de 1930 com o desaparecimento na “Boca do Inferno”, junto a Cascais com o Cabo da Roca ao fundo, do famoso mago inglês Aleister Crowley, provavelmente com o conluio de Fernando Pessoa e outros poucos.

    Terá sido uma grande “blague” o que aí se passou, como querem uns? Terá Fernando Pessoa o Teurgo aí destruído  Crowley, pretenso mago negro, como querem outros? Ou, então, não terá sido nada disso?...

    Comece-se pelo princípio da saga, e também pelo princípio pessoal de ampla desafinidade com o pensamento e prática da ideologia Crowleyana, para dissipar de antemão quaisquer pressupostos. Pois bem, Edward Alexander Crowley (Leamington Spa. Warwickhire, 12 de Outubro de 1875 – Hastings, 1 de Dezembro de 1947) era na altura de 1930 mundialmente conhecido pelas suas práticas ocultistas e mágicas que rodeava da maior controvérsia e aparato às quais os jornais da época davam ampla cobertura, destacadamente os ingleses e           ; ;      norte-americanos, pois o sensacionalismo sempre foi o “forte” das mentes fracas e o que melhor faz vender “papel”. Com algum fogo e muitíssima fumaça Crowley chocava e abanava as “morais” de uma época ainda fortemente conservadora e hipocritamente Vitoriana. Ele exercia a violência mental necessária para quebrar padrões retrógrados. Reside nisto a causa da enorme controvérsia que gerou à volta da sua pessoa, mas em momento algum foi um “mago negro” – muitíssimo menos Fernando Pessoa –, antes um mago operativo com certa e excessiva, quanto a mim, adesão à via húmida ou sexual do Tantrismo. Ademais, muito ao contrário do que tenho ouvido e lido ultimamente, a O.T.O. (Ordo Templis Oriens) por ele fundada, tinha por objectivo principal dar continuidade há já então espiritualmente falida Golden Dawn (Ordem Rosacruzista da “Aurora Dourada”), na qual havia sido iniciado no Rosacrucianismo de inspiração Egípcia.

    Crowley era um Mago e Fernando Pessoa um Teurgo. E bem se sabe que a Teurgia é a “8.ª superior” da Magia, chegando mesmo a desaconselhar a sua prática no que tem de invocatória e psíquica... Esta afirmação não é “dada de barato”, pois isto mesmo é revelado por Fernando Pessoa quando coloca os vários patamares do Saber Oculto em conformidade às sephirots da Árvore da Vida num esquema por ele mesmo desenhado e escrito (Esp. 54 A – 1) e que foi dado à estampa, numa hora feliz, por José Manuel Anes (vd. Bibliografia final). Pois bem, nesse esquema Pessoa dispõe a “Magna Magia” (Teurgia) na “esfera divina” Chokmah, a da Sabedoria, da Intuição, correspondente ao Filho, o Cristo Universal, e imediatamente abaixo, na mesma coluna, na “esfera” Chesed, a da Misericórdia, a simples “Magia”, como Imaginação ausente de Intuição. Na “esfera divina” oposta à da “Magna Magia”, ou seja Binah, correspondente à Mãe Divina expressa como Espírito Santo, Fernando Pessoa coloca a “Alta Alquimia” (como Suprema da Transformação do Ser Natural). Assim, TEURGIA – ALQUIMIA são dispostas em pé de igualdade, enquanto a “Magia”, tendo como oposto lateral, em Geburah, “Fortaleza”, a simples “Alquimia” (decerto associada à espagiria e ao assoprismo da manipulação simples dos elementos químicos, mareando-os ou sendo mareado por eles), dispõe-se em “8.ª inferior”. Opinião idêntica tem Israel Regardie, autor do livro The Tree of Life – A Study in Magic, publicado em Londres em 1969, e que a Madras Editora, de S. Paulo, publicou em 2003 sob o título Magia Hermética (A Árvore da Vida. Um Estudo sobre a Magia). Falo deste autor porque se correspondeu com Fernando Pessoa,  este como ex-membro e aquele como membro efectivo da “Golden Dawn”, em assuntos referentes ao “desaparecimento de Crowley na Boca do Inferno”, como está no seu espólio e que Miguel Roza (Luís Miguel Rosa Dias, sobrinho do Poeta) fez publicar recentemente.

Fernando Pessoa era um astrólogo nato, tendo sido ele quem introduziu os planetas Neptuno e Plutão nos temas astrológicos. Um dia, ao ler a biografia de Crowley, notou que o horóscopo deste fora estabelecido de maneira errada. Então endereça-lhe uma carta por intermédio do seu editor de Londres, com as necessárias correcções. É o início da correspondência entre os dois. Pessoa envia Crowley os seus English Poems, e um dia recebe deste a notícia que se deslocaria propositadamente a Portugal para o conhecer em carne e osso.

    E eis Fernando, o tímido, o simples e anónimo Pessoa, só, numa manhã gélida, recebendo o mago mundialmente famoso. Que não desejava o encontro parece óbvio, já que ao bulício das multidões preferia o seu cantinho discreto no café “Martinho da Arcada” ou “dos Arcos”!...

    Aleister Crowley rondava os 55 anos de idade em 1930, data em que veio a Lisboa. No dia 2 de Setembro desembarca no Cais da Rocha do Conde de Óbidos, tendo estado o navio em que se deslocara, o “Alcântara”, detido por um espesso nevoeiro subitamente caído sobre a costa, quando ia largar de Vigo, forçando-o a atrasar a partida para Lisboa cerca de 24 horas. Mal desembarca dirige a Fernando Pessoa a reprimenda maliciosa:

    – “Então que ideia foi essa de me mandar um nevoeiro lá para cima?”

Verdade se diga que nevoeiros podem acontecer todos os dias, mas Crowley lá tinha as suas razões para achar que essa manhã de nevoeiro fora especial...

    Talvez Fernando o Mestre tenha posto à prova Aleister o Discípulo. E talvez, também, esse último tenha vindo a Portugal prestar homenagem a quem, na altura, representava o seu Espírito Messiânico: o próprio Fernando Pessoa, por todos os do seu convívio considerado Mestre.

    Que Crowley sabia da Missão de Portugal não será de estranhar, tanto mais que cerca de 1910 fora visitado em Londres pelo grande antroposofista suíço Rudolf Steiner, com quem manteve prolongados contactos. E que Steiner bem sabia da Missão de Portugal, comprova-o o seguinte acontecimento: aquando da construção do Gotheanum, centro supremo da Instituição Antroposófica mundial – em Dornach, na Suíça – as várias delegações nacionais empenharam-se nessa obra, contribuindo dos mais diversos modos. No entanto, quando foi colocado a Steiner o problema da delegação portuguesa não poder dispor de fundos que lhe permitisse uma contribuição substancial, a solução não se fez esperar: aos Portugueses caberia o Púlpito.

    Ora o Púlpito é o lugar do Verbo, da Boca que Fala, estando na Cabeça que é Portugal em relação ao restante Corpo Europeu...

    Steiner adquirira estes conhecimentos junto da Sociedade Teosófica de Hamburgo através da qual conhecera o grande Polígrafo espanhol, fundador do “Ateneu Teosófico” de Madrid, Mário Roso de Luna, que era o membro n.º 7 da Sociedade Teosófica Brasileira, e foi este quem se encarregou de o apresentar por escrito ao seu Dirigente, o Professor Henrique José de Souza. Este, reconhecendo o alto valor iniciático de Steiner, viria a convidá-lo para ir junto dele no Brasil. O Antroposofista recusou, alegando razões de saúde!... Também Fernando Pessoa conhecerá indirectamente a Obra de Henrique José de Souza através do jornalista e astrólogo seu amigo, Augusto Ferreira Gomes, elogiado directamente pelo Professor por causa do seu poema Quinto Império, em que faz a apologia do Santo Graal e da Nova Idade de Ouro. Por seu lado, H. J. Souza conhecia o Pensamento Pessoano pelas suas traduções de obras esotéricas, especialmente teosóficas, tendo feito o elogio aberto de uma delas: A Voz do Silêncio, da autoria de Helena P. Blavatsky mas traduzida por Fernando Pessoa (sob o pseudónimo Fernando de Castro), cerca de 1924, e editada pela Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira & Cª (Filhos), Praça dos Restauradores, 17, Lisboa, a qual era primaz na edição de obras teosóficas e esotéricas em língua portuguesa, as quais sem o indispensável contributo de Fernando Pessoa não teriam aparecido na época em nossa Língua-Mãe.

    Como já se deve ter reparado, esta é uma teia estreita que, de uma ou outra maneira, tem como centro o próprio Professor Henrique José de Souza – Supremo Dirigente do Grande Ocidente do Brasil, Fundador da Sociedade Teosófica Brasileira e Refundador Cíclico da Ordem do Santo Graal. Em seu Pensamento e Obra, não é demais repetir, se inspira a Teurgia Lusitana através das suas várias vertentes internas, muito especialmente consagradas à Alma         &a mp;n bsp;   Ibero-Europeia, tomando por Casa-Mater a Montanha Sagrada de Sintra.

    Voltando à narrativa, acaba por estabelecer-se entre Pessoa e Crowley uma amizade íntima, só desfechando (publicamente) com o famigerado mistério da “Boca do Inferno”.

    Com efeito, a 25 de Outubro, Aleister Crowley, que estivera hospedado em Lisboa no Hotel l´Europe, com a sua companheira de viagem, Hanni L. Jaeger, desaparece. Logo a seguir, certa cigarreira depositada sobre uma carta é recolhida pelo já citado jornalista Augusto Ferreira Gomes, junto da “Boca do Inferno”, no sítio do “Mata-Cães”, quando por aí passava “acidentalmente”...

    Após investigar e verificar que os objectos pertenciam a Crowley, Ferreira Gomes publicou no Notícias Ilustrado (n.º 121, série II, Lisboa, domingo de 5-10-1930) a sua “descoberta” e o relato do “desaparecimento” do mago na “Boca do Inferno”.

Pergunta-se agora: se provavelmente Ferreira Gomes, íntimo de Fernando Pessoa, fazia parte do conluio, por que não manteve ele silêncio? Independentemente de todas as interpretações as mais banais, corriqueiras e até grosseiras que são dadas ao caso, acredito que, talvez, por via do sensacionalismo jornalístico pretender alertar e inquietar as mentes vulgares adormecidas sobre si mesmas e embaladas na vida corriqueira do dia-a-dia (os “cadáveres adiados que procriam”, como lhes chamava o Poeta), para a existência de realidades superiores que perpassam os seus embotados sentidos, e também para, antecipando-se ao alarido que o acontecimento iria provocar quando se notasse a falta de Crowley, construir uma enorme “blague” ou maya que servisse de protecção ao mistério.

    Mistério esse que, se tão-só fosse uma simples “blague”, poderia muito bem e melhor ter servido outro lugar para o Crowley se matar, como por exemplo atirar-se no alto do Cabo da Roca ou mesmo arrojar-se do cimo das fragas da Serra de Sintra. Mas não, teve que acontecer aqui, nesta “Boca do Inferno” ou “Lugar Inferior”, como o próprio Ferreira Gomes o consigna na sua entrevista ao jornalista Paul Bringuier da Déctetive, revista francesa de grande tiragem (Paris, Ano III, n.º 103, de 30 de Outubro de 1930): «Um homem desapareceu, um viajante inquieto, corajoso, numa entrada do mundo». Qual mundo, pergunto eu? Acaso a Agharta? Mas Ferreira Gomes acaso conheceria o termo e seus mistérios? Certamente conhecia e a prova está no seu  próprio livro Claro-Escuro das Profecias, pela primeira vez dado à estampa pela Portugália Editora cerca de 1942, em que transcreve a Profecia do Rei do Mundo feita em Narabanchi-Kure, no Norte da Índia, em 1890, do livro de Ferdinand Ossendowsky, Animais, Homens e Deuses, tendo antes aberto o capítulo com as seguintes palavras (creio que inspiradas na Missão da Índia na Europa, de Saint-Yves d´Alveydre): «Para além da Mongólia, na enigmática Tartária e nas montanhas nevadas do misterioso Tibete, em templos secretos, com ritos fechados, hora a hora, entre perfume e vocações, século após século, sacerdotes iniciados pensam com persistência na conquista do Ocidente». Isto é, transferir os valores espirituais do Oriente ao Ocidente inaugurando o EX OCCIDENS LUX, o que aconteceu em 1921. Consequentemente, Ferreira Gomes não era estranho a tais mistérios ctónicos ou crípticos, e logo tampouco Fernando Pessoa, afinal a figura principal de toda esta trama.

    Com efeito, note-se que na citada reportagem no Notícias Ilustrado o seu personagem central é Fernando Pessoa que, sem mentir, aumenta ainda mais o mistério. Nela conta a sua relação com o mago desde o início até ao seu desaparecimento, duma maneira quase banal ainda que enigmática, escondendo o “espírito” debaixo da “letra”, e a qual já me serviu de pista para algumas conclusões que darei adiante.

    No meu livro História Oculta de Portugal (Editora Madras, S. Paulo, 2000), transcrevo na íntegra essa reportagem tal qual saiu a lume. Agora, opto por transcrever as duas versões do texto para a mesma de Fernando Pessoa, insertas no seu espólio e praticamente desconhecidas até que, com grande felicidade, Miguel Roza as publicou em primeira mão no seu magnífico e importantíssimo livro de razoável grossura, repleto de cartas inéditas sobre este acontecimento e os que nele participaram, Encontro “Magick” de Fernando Pessoa e Aleister Crowley (Hugin Editores, Lda., Lisboa, 2001).


1ª VERSÃO

Aleister Crowley é um nome universalmente conhecido, sobretudo por causa das violentíssimas campanhas que contra ele têm feito alguns jornais de grande expansão da Inglaterra e da América. Eu conhecia o nome por estas campanhas, e não podia adivinhar que o homem visado nelas era dos maiores poetas da Europa, um escritor de extraordinária personalidade e relevo, e – diga-se sem explicar nem insistir – qualquer coisa de mais profundamente importante que tudo isso. Para mim, na inocência da verdade em que os jornais ingleses me deixavam, Aleister Crowley não era mais que o chefe de um culto imoral e satânico, o maior inimigo da religião cristã, um graduado e mestre de todas as maçonarias e super-maçonarias, espião alemão, espião soviético, canibal (!) e outras coisas menores que o seu jornal não poderia imprimir. Apenas me ficou, de todas essas leituras, uma vaga noção de que devia haver uma forte personalidade num homem assim atacado pela prática de todos os crimes e de todos os vícios.

    Em Novembro do ano passado recebi uma circular anunciando a publicação em seis volumes das Confissões de Aleister Crowley. A circular era interessantíssima; assinei a publicação.

    Em princípios de Dezembro recebi o primeiro volume; só esse e o segundo, aliás, estão ainda publicados. O primeiro volume abre com um horóscopo de Crowley. Estudei atentamente esse horóscopo, e, quando remeti aos editores a importância do volume, pus na minha carta uma nota final de que dissessem ao sr. Crowley que o seu horóscopo estava errado, devendo ele ter nascido um pouco antes da hora que supunha.

    Recebi de aí a pouco uma carta de Crowley agradecendo a minha indicação, a achando-a muito aceitável. Assim começaram as nossas relações.

    Quando recebi o segundo volume, que foi em fins de Dezembro, enviei a Crowley, não sei já a que propósito, três folhetos meus, com versos em inglês, que há bastante tempo eu publicara. Ao agradecer-mos, Crowley honrou-me com a afirmação de que me desejava conhecer e de que aproveitaria a primeira viagem propícia para me vir falar.

    Assim fez. Tendo que sair de Inglaterra por motivos de saúde, escolheu Portugal – ou, mais propriamente, a Costa do Sol – para lugar de repouso. Em 29 de Agosto recebi um telegrama dele, dizendo que chegava no “Alcântara” e pedindo que o fosse esperar.

    Assim fiz. O “Alcântara”, retido em Vigo pelo nevoeiro, chegou a Lisboa a 2, em vez de a 1, de Setembro. Datam desse dia as minhas relações pessoais com um dos homens mais notáveis do mundo, talvez, em certo sentido, o homem mais notável que há (ou houve) no nosso tempo.

    Crowley vinha acompanhado por Miss Hanni Larissa Jaeger, uma senhora alemã muito jovem e muito bonita. Foram para o Hotel de l’Europe, e, no dia seguinte, para o Hotel Paris, no Estoril.

    Encontrei-os (aos dois) só duas vezes depois da chegada – uma vez no Estoril, outra em Lisboa.

    Em 18 de Setembro recebi uma carta de Crowley, do Hotel Miramar, dizendo-me que Miss Jaeger tivera no dia 16, à noite, um ataque histérico formidável, que pusera em estado de sítio o Hotel Maris inteiro; que em virtude disso tinha ido para o Hotel Miramar, mas que, na manhã de 17, Miss Jaeger tinha desaparecido, deixando apenas duas linhas a lápis, dizendo que “voltava já”.

    No mesmo dia 18 Crowley apareceu-me em Lisboa, muito preocupado com a ausência de Miss Jaeger; afirmou-me que ela estava perturbadíssima, que se queria matar, e que se julgava perseguida por um mago negro chamado Yorke. Como o importante era ver se se encontrava aquela senhora – cuja tendência para o suicídio, com ou sem magos negros, não era tranquilizadora –, fui à Polícia de Segurança, a cujo segundo comandante, o meu amigo Major Joaquim Marques, expus a situação e pedi que se fizesse o possível para se encontrar Miss Jaeger. Ficaram de a procurar, e sei que de facto a procuraram; até hoje, que eu saiba, ainda a não encontraram, e v. ouviu agora mesmo, no Torel, que não há notícia de ela ter saído do país.

    Pormenorizo este incidente porque nele está porventura a chave do caso misterioso que nos confronta.

    Crowley ficou em Lisboa, no Hotel de l’Europe, desde o dia 18 até o dia 23 (salvo domingo, 21, que passou em Sintra). Foi então que o vi mais vezes – uma ou mais vezes por dia. No dia 23 disse-me que ia outra vez para Cintra, que o encantara, e que ali se demoraria uns dias. Deixou-me autorização para receber a correspondência que viesse endereçada a ele para a Agência Cook, para eu poder receber uns livros que me eram destinados. Não me deixou indicação alguma sobre o que fazer com a correspondência restante.

    Agora chego a um ponto que para mim constituía certeza, mas que as afirmações da Polícia Internacional – que v. ouviu – me tornaram duvidoso. Ia jurar que vi Crowley duas vezes no dia 24 – uma vez no Rossio, outra no Cais do Sodré, a entrar para a Tabacaria Inglesa. De ambas as vezes o vi de longe, nem tinha tempo ou razão para lhe falar; mas das duas vezes me pareceu que me não enganava. A Polícia Internacional diz que ele passou a fronteira em 23. Passaria? Passaria e voltaria? Baseia-se a Polícia só num passaporte?

    É que chegamos agora ao mais importante – à prova, contida na carta que v. achou – de que Crowley estava em Lisboa, ou no Estoril, depois do dia 23. Essa prova é, por assim dizer, invisível a olhos profanos.

    A carta, traduzida literalmente, diz assim:

                        Ano 14, Sol em Balança.

L.G.P.

    Não posso viver sem ti. A outra “Boca do Infierno” (sic) apanhar-me-á – não será tão quente como a tua.

    Hisos!

        Tu
        Li
        Yu

Explico até onde compreendo, e deixo o importante para o fim. “Ano 14” é o ano presente, na cronologia especial adoptada por Crowley e cuja origem não vem para o caso. L.G.P. não sei o que é, mas, pela colocação na carta, deve ser o nome místico ou oculto de Miss Jaeger. Hisos também não sei o que é, mas, também pela colocação, é com certeza uma palavra mágica e secreta, entendida só pelos dois. Tu Li Yu é o nome de um sábio chinês que viveu uns três mil anos antes de Cristo, e de quem Crowley diz ser a incarnação presente. E agora o ponto importante, a data: Sol em Balança. O Sol entrou no signo de Balança às 18 horas e 36 minutos do dia 23 de Setembro. Esta carta foi portanto escrita entre essa hora e a hora a que v. a encontrou – na tarde de 25, segundo v. me disse.

    Data falsa? Não, meu amigo: um astrólogo pode pôr datas falsas desde que use os algarismos ou fórmulas vulgares, mas nenhum astrólogo, por motivos que não é lícito revelar, ousaria falsear uma data escrita em sinais dos astros. Afirmo-o: Aleister Crowley estava em Lisboa, senão no dia 23 à noite, com certeza no dia 24, quando a Polícia Internacional o deveria supor léguas para além da fronteira...

    Há outro ponto em que tocarei de leve. A assinatura da carta revela-me claramente a natureza do que sucedeu. Nenhum ocultista assina com o nome de uma (real ou suposta) incarnação anterior senão quando vai, por assim dizer, reassumir essa incarnação, regressar ao seu ser essencial. Fiquemos por aqui...

    São essas as minhas conclusões. E se me chamarem doido, v. sabe que é coisa que nem é dura nem nova para quem foi director do Orfeu...

    Devo informar de antemão que o texto está transcrito tal qual no original, inclusive os sublinhados, aqui negritados, excepto a ortografia actualizada. Os aparente lapsos que aqui e ali aparecem na escrita, tenho muitas dúvidas o que sejam, pois o “poeta é um fingidor” e chega a fingir ou truncar com a Cábala Fonética muita verdade, como essa do S e C para Sintra e Cintra, ou do Hotel Paris com a “gralha inocente” da primeira letra dar... MARIS. Em que pensaria Fernando Pessoa no momento em que escrevia tão “descuidadamente”? Tão-só numa vingança barata sobre um editor britânico qualquer (acaso alguma vez se pensou que o “mago negro Yorke” poderá não ser uma pessoa mas um Rito Maçónico vedado a mulheres?...) e assim bem intrujar o universo público? Duvido, e muito... ademais não acreditando que a boa educação e firmes princípios éticos, reconhecidos unanimemente em Fernando Pessoa, acaso lhe permitissem descer a nível tão baixo, truculento e fraudulento. Ademais, se a Tradição Iniciática das Idades norteou todo o seu Pensamento e Obra hoje património universal da Humanidade, e nenhum Iniciado em tempo algum se atreveria conspurcá-la, consequentemente, “a bota não bate com a perdigota”... muitíssimo menos valia tendo quem pelo seu quadro mental tenta adivinhar o quadro mental do alheio, querendo-o igual ao seu, o que é erro grasso... aumentado para quem nada sabe de Teosofia e muitíssimo menos ainda da maneira de agir do Mundo Iniciático no mundo profano, que geralmente, e é de LEI SUPREMA, não se diz nem se escreve.

2ª VERSÃO

Em Novembro do ano passado recebi pelo correio uma circular anunciando a publicação em seis volumes das Confissões de Aleister Crowley. O nome era-me conhecido, como a toda a gente que vive na Europa, pelo vasto escândalo, erguido pelos jornais ingleses e americanos, que o rodeava. A circular era interessantíssima. Assinei, com sacrifício, a publicação.

    Em princípios de Dezembro recebi o primeiro volume das Confissões; só esse e o segundo estão, aliás, ainda publicados. O primeiro volume abre com um horóscopo de Crowley. Como sou astrólogo, estudei atentamente esse horóscopo, e, quando remeti aos editores a importância do volume, pus na minha carta uma nota final: disse-lhes que comunicassem ao sr. Crowley que o seu horóscopo estava errado, devendo ele ter nascido um pouco antes da hora que supunha.

    De aí a dias recebi uma carta de Crowley, agradecendo a minha indicação e achando-a muito aceitável. Assim começaram, a distância, as nossas relações.

    Quando, em fins de Dezembro, recebi o segundo volume, enviei a Crowley três folhetos meus, de versos em inglês, que há bastante tempo publicara. Ao agradecer-mos, Crowley honrou-me com a afirmação de que me desejava conhecer, e de que aproveitaria a primeira viagem propícia, das muitas que fazia, para me vir falar.

    Assim fez. Tendo que sair de Inglaterra por motivos de saúde, escolheu Portugal – ou, mais propriamente, a Costa do Sol – para estância de repouso. Em 29 de Agosto recebi um telegrama anunciando que chegava no “Alcântara” e pedindo que o fosse esperar. O “Alcântara”, retido em Vigo pelo nevoeiro, chegou a 2 – em vez de a 1 – de Setembro. Esperei Crowley, e encontrei-o, como se combinara. Datam desse dia as nossas relações pessoais.

    Crowley vinha acompanhado de uma senhora muito jovem, que supus ser inglesa, mas depois soube ser alemã e chamar-se Hanni Larissa Jaeger. Ficaram os dois no Hotel de l’Europe, de onde foram, no dia seguinte, para o Hotel Paris, no Estoril. Encontrei-os (aos dois) só duas vezes depois da chegada – uma vez no Estoril, no dia 7; outra vez em Lisboa, no dia 9. Depois do dia 9 não tornei a ver Miss Jaeger.

    Em 18 de Setembro recebi uma carta de Crowley, escrita do Hotel Miramar, no Monte Estoril.       Dizia-me que Miss Jaeger tivera, na noite de 16, um violentíssimo ataque histérico, que havia sobressaltado o Hotel Paris inteiro; que em virtude disso tinha vindo para o Hotel Miramar; mas que, na manhã de 17, Miss Jaeger tinha desaparecido, deixando apenas duas linhas a lápis, dizendo que “voltava em breve”.

    No mesmo dia 18 Crowley apareceu-me em Lisboa, visivelmente preocupado com o desaparecimento de Miss Jaeger. Disse-me que o que sobretudo o preocupava era a hereditariedade carregadíssima dela, a sua tendência proclamada para o suicídio, e a convicção em que estava de estar sendo perseguida por um mago negro chamado Yorke. Achava pois urgentíssimo descobrir o seu paradeiro. Como me pareceu realmente importante encontrar Miss Jaeger – cuja tendência para o suicídio, com ou sem magos negros, não era tranquilizadora –, fui à Polícia de Segurança, por ser meu amigo o Segundo Comandante, Major Joaquim Marques, e a este expus a situação e pedi que se fizesse o possível para encontrar a desaparecida. Ficaram de a procurar, e sei que de facto a procuraram. Que eu soubesse, não a conseguiram encontrar. Vejo agora, num jornal, que a Polícia (não sei qual) descobriu que ela saíra do país no dia 20, a bordo do vapor “Werra”, para a Alemanha, e que era americana e não alemã, tendo até pedido auxílio monetário no Consulado dos Estados Unidos. Registro e duvido. O passaporte dela, como o vi e o viram no Hotel de l’Europe, era alemão.

    Crowley ficou em Lisboa, no Hotel de l’Europe, desde o dia 18 até ao dia 23 (salvo Domingo, 21, em que foi jogar xadrez a Sintra). Foi durante esta estada em Lisboa que lhe falei mais vezes. No dia 22 disse-me, e no dia 23 repetiu-me, que ia outra vez para Sintra, com que ficara encantado, e que ali se demoraria alguns dias. Despediu-se de mim às 10 horas e meia do dia 23, à porta do Café Arcada, no Terreiro do Paço. Nunca mais lhe falei. Quero crer que ainda o vi.

    No dia 24, vindo da Estrela, de manhã, no carro que desce a Avenida, vi Crowley, ou o seu fantasma, dobrar a esquina do Café La Gare para a Rua 1.º de Dezembro. No mesmo dia 24, ao atravessar a Praça Duque da Terceira, vi Crowley, ou o seu fantasma, entrar, com outro indivíduo para a Tabacaria Inglesa. Em nenhum dos casos havia tempo, ou até razão, para lhe falar, nem estranhei, realmente, que viesse a Lisboa um indivíduo que está em Sintra.

    No dia 25, passando pelo Hotel de l’Europe, perguntei ao porteiro se o sr. Crowley efectivamente estava em Sintra. Respondeu-me que sim, e que se demorava até ao fim da semana. Disse-lhe que tinha visto o sr. Crowley, no dia anterior, nas imediações da Estação do Cais do Sodré; a isto o porteiro respondeu textualmente, “é que ele deve ter ido ontem ao Estoril com um amigo que tem em Sintra”. Isto, como é de ver, confirmou a minha impressão – de cuja justeza não tinha razão para duvidar – de ter visto Crowley duas vezes no dia 24. A Polícia Internacional diz que ele passou a fronteira no dia 23. Se assim é, é assim; e nesse caso não foi a ele que eu vi no dia 24.

Eu aceitaria de bom grado a indicação da Polícia Internacional; aceitaria, de menos bom grado, a hipótese de que se tratasse de uma mistificação de Crowley, se não fosse uma circunstância, contida na carta achada na Boca do Inferno, que me faz reverter, em certo modo, à minha impressão primitiva.

    A carta, traduzida literalmente, diz o seguinte:

                  Ano 14, Sol em Balança.

        L.P.G.

            Não posso viver sem ti.  A outra “Boca
        do “Infierno” (sic) apanhar-me-á – não será tão
        quente como a tua.

                Tu Li Yu.


Explico até onde compreendo, e deixo o importante para o fim. “Ano 14” é sem duvida o ano presente, na cronologia especial adoptada por Crowley, e cuja origem desconheço. “L.G.P.” não sei o que é, mas, pela colocação na carta, deve ser o “nome místico” de Miss Jaeger, ou as iniciais dele. “Hisos” também não sei o que é, mas, pela colocação, suponho ser uma “palavra mágica”, entendida só pelos dois. “Tu Li Yu” sei o que é, por Crowley uma vez me ter falada nisso: é o nome de um sábio chinês, que viveu uns três mil anos antes de Cristo e de quem Crowley dizia ser a incarnação presente.

    E agora o ponto importante: a data. A data é – Sol em Balança. Ora o Sol entrou no signo de Balança às 18 horas e 36 minutos do dia 23 de Setembro; nesse signo permanece até cerca de 22 de Outubro. Essa carta foi portanto escrita entre essa hora do dia 23 e a hora em que foi encontrada.

    Data falsa? Não. Um astrólogo pode pôr datas falsas, como toda a gente, desde que use os algarismos ou fórmulas vulgares. O que nenhum astrólogo, por motivos que não é lícito revelar, ousaria fazer, é falsear uma data escrita em sinais dos astros. Aceito que um astrólogo seja tido por louco; mas essa superstição é um dos sintomas fatais da sua loucura.

    Sobre o facto de Crowley assinar a carta, não com o nome próprio, nem com nenhum dos seus nomes ocultos ou maçónicos, mas com o nome representativo do que considera a sua primeira incarnação representativa, ou o seu primeiro “ser essencial”, também haveria algumas observações a fazer, e alguma coisa viria ara o caso. O que aí está, porém, já basta.

    Realmente Fernando Pessoa soube adensar ainda mais o mistério que, sem dúvida alguma, liga-se à temática dos Mundos Subterrâneos como o próprio nome, “Boca do Inferno”, indica: Embocadura para o Infierno, antes, Infera, Inferior ou Interior da Terra. Como já falei algumas vezes, certas tradições dizem que daí ou das cercanias parte uma passagem subterrânea indo desembocar em Sintra. Procurei a prova dessa afirmação e desci ao fundo ao fundo da “Boca”, às duas cavernas naturais lá existentes, com uma terceira submarina que não penetrei, por falta de equipamento. Na primeira, de facto, há ao fundo uma reentrância na rocha com o sugestivo formato de porta. Na segunda, a “Mata-Cães”, entra-se bem e depois tem de se conter a respiração para poder rastejar até não se poder mais, ficando-se entalado entre o chão e o tecto. Por esta entrada garanto que Crowley nem nenhum ser vivo entrou até ao seu fim, e o mais que encontrei foi uma pequena âncora que alguma maré furiosa atirou lá para dentro. Quanto à anterior, não sei se será essa a tal entrada misteriosa (a despeito das dúvidas pessoais por razões maiores aqui não vindo ao caso), mas se acaso for realmente um portal, será que abrirá em determinadas ocasiões, ou algum outro próximo do lugar mas não propriamente na “Boca do Inferno”? E terá sido na proximidade de uma dessas ocasiões que Crowley veio a Lisboa, para sair de Portugal por via subterrânea, rumo a Eirfurtz, enquanto o seu “sósia” ou “tulku” atravessava a fronteira no Sud-Express para Paris? Será aceitável colocar-se este tipo de interrogações bizarras ao lúcido espírito humano? Sim, é, tanto mais que se está pisando o mais que movediço Mundo Iniciático onde, em boa verdade, tudo é possível...

Mata-Cães sugere-me intuitivamente o termo sânscrito Matra-Devas, as “divindades da medida” projectadas do Céu à Terra onde delimitam e guardam zonas consideradas às vezes menos sagradas e mais sobrenaturais pelo comum das gentes, para todos os efeitos afloramentos do Mundo Jina que preenche os mitos, folclores e tradições de todo o mundo.

    Serão os “guardiões invisíveis”, essa “fauna elemental” deste lugar que lhe granjeou a fama de verdadeiro inferno por causa de inúmeros acidentes mortais aqui ocorridos com incautos e aventureiros que são engolidos pelas fúrias marinhas, desaparecendo para sempre nas profundezas tenebrosas do oceano? Esta interrogação é também um aviso sério de que não se deve descer ao fundo da “Boca”, à caverna que só raramente não está submersa com as suas paredes fustigadas pelas ondas medonhas, sem um guia sério conhecedor do sítio e das marés, pois, não é demais repetir, o mar tem aqui o costume de revoltar-se subitamente, quando menos se espera, podendo ocasionar graves e fatais acidentes.

A data astral da carta de Aleister Crowley, Ano 14, Sol em Balança, poderá ser a chave para destrinçar o enigma. Quando Helius se encontra em Libra, relacionada com Vénus – a “Stella Maris” –, a Mãe Divina e o Mundo Jina como Mundo dos “Mortos-Vivos”       & ;nbs p;   (“Mata-Cães”?) ou Dwijas, os verdadeiros Iniciados, há realmente uma maior aproximação entre os dois Mundos, o da superfície e o do interior, o que facilita a transposição de quaisquer “Bocas do Inferno” em qualquer parte do Mundo, informa a Tradição Iniciática das Idades.

    Ora Balança tem a ver com Lisboa, e também com Sintra, centro do V Império Universal como o quer o Hermetismo Lusitano, e daí o algarismo 5 (1+4 do ano) junto aos 55 anos de idade de Crowley dar o cabalístico 555, número esotérico da mesma Sintra e o qual é identificado ao “Tabernáculo Pétreo do Santo Graal”. Isto leva a mais uma pergunta “bizarra”: será que Aleister Crowley mergulhou no interior da dita Montanha para receber a Iniciação que lhe faltava, sob o apadrinhamento de Fernando Pessoa que algumas vezes assinou textos defensivos da Maçonaria com o nome simbólico de Hiram Petrus (não estou dizendo que Fernando Pessoa foi maçom, porque não o foi em nenhum dos Ritos conhecidos, mas antes acérrimo defensor esclarecido da Tradição), tendo entrado por alguma parte junto ao Mar Oceano, afinal, Maris Nostrum?

    E se as iniciais da carta, escrita em inglês e traduzida por Fernando Pessoa, invés de serem “L.G.P.” forem a bem Lusa “G.L.P.” – G.rande L.oja P.ortuguesa? De que “Loja” se tratará então? A da Fraternidade Oculta de Portugal sob a égide da Excelsa e Divina Mãe, Mariz Nostra?

 E se o “Hisos” persa tiver a ver com o sânscrito Surya, Sus, o Sol, e “Tu Li Yu”, além da referida encarnação do mago representativa por marcar o início da sua evolução no Caminho Iniciático, significar simplesmente: “Tu e Eu” – Eu a Individualidade espiritual, Tu a Personalidade material –, e juntando os dois termos (“Hisos” e “Tu Li Yu”) obter-se: Eu sou Um com o Espírito Universal? Em que posição se ficará ante tudo isto, que menos que “blague” monumental é mais trama descomunal de Iniciação?

    A cigarreira de Crowley, só por si confirma tudo quanto até aqui disse, a não ser que ambos os personagens, Aleister e Pessoa, profundamente enraizados no Mundo da Tradição Iniciática, fossem servir-se dos elementos mais sagrados desta por chacotear o público geral. Tal é completamente incongruente, pois não confere com nada e em nada... dizia, a cigarreira de Crowley está pintada com duas alegorias egípcias: no verso apresenta uma cena de Iniciação, e no reverso o Iniciado em posição quase fetal (o encontro com a posição original no ventre da Mãe, aqui a Mãe-Terra) segurando a cruz ansata, símbolo da imortalidade expressivo desse outro da fénix alquímica, ou seja, do “morrer para renascer”.

    Carta e cigarreira dizem bem aonde o mago terá ido... a quem seja Iniciado. Quanto ao resto, em Sintra, sabe-se que foi no Casal de Santa Margarida, a convite do Major Eduardo Maldonado Pellen, director em Portugal da Companhia Petrolífera Shell, que se hospedou.

Em Janeiro do ano seguinte (1931), ainda Fernando Pessoa mantinha a tudo e a todos na maior incógnita, por “não se poder descobrir o segundo sentido”, segundo dizia. Mantinha-se a dúvida quanto ao suicídio ou assassinato de Crowley. Estaria o terrível mago morto e bem morto para sossego de todo o “mundo civilizado”? Quanto tudo indicava que si, vem novamente Fernando Pessoa desassossegar os espíritos, desabafando em carta a João Gaspar Simões: “O Crowley, que, depois de se suicidar passou a residir na Alemanha, escreveu-me à dias”...

    É esta a história de um desaparecimento na borda da Serra de Sintra, história que até hoje ninguém (excepto, é claro, os seus intervenientes) soube explicar condignamente, e mesmo que esta minha interpretação não seja aceite como a melhor, nada obriga a aceitar as outras como melhores porque, em boa verdade, acaso também não o serão.
Mas o que é e diz tudo, com tudo certamente a ver com este episódio da “Boca do Inferno”, é o poema “O Último Sortilégio” de Fernando Pessoa (publicado na revista “Presença” no mesmo ano do acontecimento, 1930), de que retiro excertos bem a ver, quanto a mim, com a finalidade da descida aos Infernos ou Inferiores Lugares de Eduardo Alexandre Crowley pela mão hierofântica do mesmo Fernando Pessoa:

            Já repeti o antigo encantamento,
        E a grande Deusa aos olhos se negou.
        Já repeti, nas pausas do amplo vento,
            As orações cuja alma é um ser fecundo.
        Nada me o abismo deu ou o céu mostrou.
        Só o vento volta onde estou toda e só,
        E tudo dorme no confuso mundo.

            Já me falece o dom com que me amavam.
            Já me não torno a forma e o fim da vida
            A quantos que, buscando-os, me buscavam.
            Já, praia, o mar dos braços não me inunda.
            Nem já me vejo ao sol saudado erguida,
            Ou, em êxtase mágico perdida,
            Ao luar, à boca da caverna funda.

            Converta-me a minha última magia
            Numa estátua de mim em corpo vivo!
            Morra quem sou, mas quem me fiz e havia,
            Anónima presença que se beija,
            Carne do meu abstracto amor cativo,
            Seja a morte de mim em que revivo;
            E tal qual fui, não sendo nada, eu seja.

Ou então aquele outro poema de Fernando Pessoa mas assinado pelo heterónimo Álvaro de Campos, com o título Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra, todo ele repleto de significados que as letras escondem... e o Poeta, que nunca teve carta de condução, lá conduz o vistoso “Chevrolet” (Chevaoth? Shiva-Alethe?) que alguém lhe emprestara, ou seja, tomara posse da “Merkabah”. Eis alguns excertos do vasto poema:

            Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
            Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
            Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
            Me parece, ou me forço um pouco para que pareça,
            Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
    Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
            Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?

            Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
        Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
            Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
        Sempre, sempre, sempre,
            Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
            Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...
        Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
            Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
        Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
            Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo
        Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
            Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

        À esquerda o casebre – sim, o casebre – à beira da estrada
            À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
        O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
            É agora uma coisa onde estou fechado
        Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
            Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

        Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?
       
            Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
            Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
        Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
            E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
        Acelero...
            Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
            À porta do casebre,
        O meu coração vazio,
            O meu coração insatisfeito,
            O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.
       
        Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
            Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
            Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
        Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...

OBRAS CONSULTADAS


Vitor Manuel Adrião, História Oculta de Portugal e Mistérios Iniciáticos do Rei do Mundo (História Oculta de Portugal). Madras Editora Ltda, S. Paulo, 2000 e 2002.

Fernando Pessoa, Poesia Mágica, Profética e Espiritual. Poemas inéditos estabelecidos e comentados por Pedro Teixeira da Mota. Edições Manuel Lencastre, Lisboa, 1989.

Fernando Pessoa, Textos de Intervenção Social e Cultural. Introdução, organização e notas de António Quadros. Publicações Europa-América Lda, Mem Martins.

Fernando Pessoa, Poesias de Álvaro de Campos. Introdução, organização e notas de António Quadros. Publicações Europa-América Lda, Mem Martins.

Augusto Ferreira Gomes, Quinto Império. Prefácio de Fernando Pessoa e Posfácio de Pinharanda Gomes.  Parceria A. M. Pereira, Lisboa, 2003.

Augusto Ferreira Gomes, No Claro-Escuro das Profecias (e artigos sobre Fernando Pessoa). Fixação do Texto, Notas, Ensaio-Bio-Bibliográfico e Estudo sobre a Profecia de S. Malaquias por Pinharanda Gomes. Roma Editora, Lisboa, Outubro 2005.

A Maçonaria vista por Fernando Pessoa e Norton de Matos. Organização da Antologia por Petrus. Reprodução do célebre artigo do “Diário de Lisboa” N.º 4.388 de 4 de Fevereiro de 1935. José Ribeiro, Editor, Julho de 1988, Sacavém.

Jorge Vernex, A Maçonaria e Fernando Pessoa. Edições Além, Porto, 1953.

Victor Mendanha, Mágico desapareceu na “Boca do Inferno”. Matutino “Correio da Manhã”, 16.2.1986.

João Gaspar Simões, Vida e Obra de Fernando Pessoa. Livraria Bertrand, Lisboa, 1981.

Miguel Roza, Encontro “Magick” de Fernando Pessoa e Aleister Crowley. Compilação e considerações do Autor. Hugin Editores Lda., Lisboa, Novembro de 2001.

José Manuel Anes, Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos. Ésquilo Edições & Multimédia, Lisboa, Novembro 2004.


Victor Belém, O Mistério da Boca do Inferno (O encontro entre o Poeta Fernando Pessoa e o Mago Aleister Crowley). Lisboa, Casa Fernando Pessoa, 1995.

Yvette K. Centeno, Fernando Pessoa: Magia e Fantasia. Edições Asa, Porto, Junho de 2004.

Luísa Alves, Um excêntrico encontro anglo-português: Aleister Crowley e Fernando Pessoa. In “Revista de Estudos Anglo-Portugueses”, pp. 83-131, F.C.S.H./F.C.T., Lisboa, 1997.

Saint-Yves d’Alveydre, La Misión de la India en Europa (la Misión de Europa en Asia). Luis Cárcamo, editor, Madrid, primera edición, 1988.

Ferdinand Ossendowsky, Bestas, Homens e Deuses (o enigma do Rei do Mundo). Hemus – Livraria Editora Ltda. São Paulo, 1978.

René Guénon, O Rei do Mundo. Existem duas edições na língua portuguesa: a 1.ª pela Editorial Minerva, Colecção “Cavalo Branco”, Lisboa, 1978; a 2.ª pelas Edições 70, Lisboa, 1982. O texto original francês foi editado em Paris pela Librairie Gallimard, 1958. Há ainda uma tradução, profusamente anotada e comentada pelo Professor Henrique José de Souza, que saiu em vários números da revista “Dhâranâ”, órgão oficial da Sociedade Teosófica Brasileira, entre 1960-1962.

Henrique José de Souza, A Verdadeira Iniciação. 1.ª edição em 1939, 2.ª edição em 1957, 3.ª edição em 1966. Reimpressão em 1.º de Março de 1978, Associação Editorial Aquarius, Rio de Janeiro.

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