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Entrevistas e Reportagens
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Assunto Tópico: DAMA DE SINTRA - O Chalet da Condessa Nova mensagemNovo tópico
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Colocado: 2006 - 14 - Outubro às 11:43 | IP Ligado Citar admin

 

TEXTO REVISTO E ACTUALIZADO DA REPORTAGEM ANTERIOR PUBLICADA NO

JORNAL “A PENA”, SEMANÁRIO REGIONAL DO CONCELHO DE SINTRA

ANO III – N.º 212, 12 DE JUNHO DE 1997

 

 O Chalet da Condessa Iluminada

 

DAMA DE SINTRA

 

 

No meio do Parque da Pena, a Condessa Elise d’Edla idealizou e fez construir, no século passado, um Chalet.  Antecipou assim uma moda que conhecerá grande sucesso, alguns anos depois na Costa do Estoril e de Cascais.

VITOR MANUEL ADRIÃO

 

Se foi grande o amor de D. Fernando II de Saxe-Coburgo Gotha pela sua primeira esposa, a rainha D. Maria II, extremado o terá sido por Elise Friederick Hensler, com quem casou após ter enviuvado em 1853.

 

De origem suíço-alemã, filha de Friederich Conrad Hensler e de sua mulher, Louise Hensler, nasceu a 22 de Maio de 1836 em La Chaux-de-Fonds, no Jura, perto de Neuchâtel. Aos doze anos de idade, Elise Hensler emigrou com os seus pais para Boston, na América do Norte. Recebeu especiais cuidados na educação, não faltando o cultivo das Artes e das Letras. Tendo os seus estudos sido orientados para o belo canto, viria a completar a sua formação na Europa.

 

Acompanhada da mãe e integrada na Companhia de Ópera de Laneuville, cerca de 2 de Fevereiro de 1860 chegaria a Portugal, estreando-se no Teatro S. João, no Porto. Seria depois escriturada para o Real Teatro de S. Carlos, em Lisboa, a fim de cantar no “Propheta” e no “Roberto do Diabo”, nos respectivos papéis de Bertha e Elisabeth. Estreava-se assim em Lisboa a 12 de Outubro desse mesmo ano.

 

Melómano de gostos refinados, D. Fernando II não perdeu uma só das actuações de “o luminoso meteoro” nos dois grandes teatros portugueses. Da Música e do Teatro nasceria o Amor que iluminaria toda a actuação de duas vidas fadadas à união eterna pelos laços da divina Arte.

 

Seria a infanta D. Isabel Maria, tia de D. Maria II, a medianeira e madrinha nos laços afectivos entre a Actriz e o Rei, uma feita no Teatro da Vida e outro na Escola da Humanidade.

 

Com efeito, a 10 de Junho de 1869 celebrou-se o inevitável consórcio real no Palácio Devisme, em Benfica, tendo dias antes o Príncipe Ernesto de Saxe-Coburgo Gotha agraciado Elise Hensler com o título de Condessa d’Edla.

 

Os Contemporâneos Ilustres, tomo II, pág. 282, 1878, assim retracta a Condessa:

 

«A Condessa d’Edla estava de certo modo fadada para ser a esposa de um homem como D. Fernando, tão protector das artes e dos artistas e ao mesmo tempo tão ilustrado!

«Possuindo uma educação esmeradíssima, conhecendo a fundo e falando perfeitamente sete dos principais idiomas da Europa cultivando as artes com ardor, apaixonada pelo belo, amando o retiro e vivendo sem a menor ostentação, a Condessa d’Edla é uma senhora de muita consideração pública, porque alia ao seu género artístico um coração benfazejo.»

 

Para além de cantora e actriz, a Condessa d’Edla era ainda música, escultora, ceramista, pintora, arquitecta, floricultora e, muito provavelmente, ocultista, tal como o seu real esposo.

 

Do casamento de D. Fernando com D. Elise nasceria uma filha, Alice Hensler (que alguns outros dizem não ser filha dele mas do primeiro casamento da Condessa, antes de vir para Portugal), a qual viria a casar com Manuel de Azevedo Gomes, pai do cronista do Parque da Penha, Mário de Azevedo Gomes.

 

Seja como for, enfoque-se na ilustre Senhora a dedicação da sua vida a um Rei companheira inseparável da sua presença, continuado num caminho de ausência, até ao seu falecimento em 1929, aos 93 anos, sempre honrando a memória do seu «bon et cher Roi Ferdinand».

foto da dama de sintra

Elise Hensler, a Condessa d’Edla

 

Depressa D. Elise interessou-se pelos trabalhos do Palácio da Penha, em Sintra, começados por impulso de D. Fernando em 1839 e que terminariam apenas com a sua morte, em 1885. As plantações do Parque, já muito importantes entre 1840 e 1850, intensificaram-se a partir de 1869, como por exemplo as das “Feteiras da Condessa”. É a ela que se deve, nessa altura, a introdução de certas espécies arbóreas da América do Norte, onde passara quase toda a sua juventude.

 

No meio deste Parque tão amado a Condessa morganática concretizou em 1869, com o mestre de obras Gregório, a construção de um Chalet (possivelmente iniciado em 1865), antecipando assim uma moda que conhecerá grande sucesso, alguns anos depois, na costa do Estoril e de Cascais, tendo aqui nesta última, em 1873, sobre o antigo Forte da Conceição, Thomas Henry Wyatt construído o primeiro chalé da costa para os Palmela.

 

Sendo a Condessa a própria arquitecta, desenhou um edifício de planta rectangular no rés do chão, cruciforme no primeiro andar, rodeado de uma varanda, e cuja alvenaria exterior imitava tábuas de madeira encavalitadas umas nas outras, ao estilo das casas rurais norte-americanas. Era abundante a utilização de cortiça, por possível inspiração no Convento dos Capuchos da Serra. Trabalhada com arte, tornava-se inclinada na decoração das ombreiras dos vãos em arco quebrado, arredondando-se à volta dos óculos, multiplicava-se no friso de pequenos arcos que sublinhavam as coberturas e chegando mesmo a metamorfosear-se numa espécie de hera centenária decorando a fachada, melhor integrando o edifício no seu enquadramento silvestre.

 

No interior, o acolhimento a par do recolhimento era nota toante. O que mais me tocava, e agora me revolta ante os escombros sobrados do fogo que lhe atearam (havendo ainda falta da Cruz Alta que um raio destruiu), dizia, o que mais me tocava eram o salão grande (onde quatro troncos de hera em estuque finamente modelados, enriquecidos por nervuras em cobre, escalonavam os cantos das paredes e entrelaçavam nas cornijas as suas ramagens cobertas de folhas) e um quarto no primeiro andar, o do Rei, ambos com encastoamento arabizante feito de cortiça pintada multicores, conferindo-lhe o espírito mourisco da Serra.

 

Merece também referência o quarto da Condessa, no primeiro andar, defronte para o do Rei, separando-os o vão de escadaria, onde na parede fronteira da primeira volta estavam pintadas as Armas de Saxe e de Portugal, e no fim da escadaria de madeira, de corrimão com torneados arábicos finamente trabalhados, defronte uma pintura arcádica dum pastor tocando flauta. Esse quarto da Condessa estava pintado primorosamente de rendas brancas contra um fundo azul anil, possivelmente obra do mestre Domingues Freire, pai de Luciano Freire, afamado pintor de arte que terá realizado muitos trabalhos no tempo da Condessa d’Edla, como conta o neto desta, Mário de Azevedo Gomes, na sua Monografia do Parque da Pena (Lisboa, 1960).

 

Adianto que todas as obras interiores de estuque e de pintura estavam a cargo do mestre Sebastião Ribeiro Alves, chefiando uma equipa de decoradores rigorosamente seleccionada.

 

Tendo em consideração a cultura humanística de D. Elise, acompanhada da influência cerrada do imaginário cavaleiresco contido nas óperas dos maiores clássicos (Verdi, Meyerbeer, etc., nas quais actuou), e não ignorando o acentuado pendor Rosacruz de D. Fernando, com muito de druídico e arábico fundidos num panorama escultórico decorando todo o Parque e recriando a ambiência sobre-humana da Epopeia do Santo Graal, não me custa admitir que a ilustre Senhora fosse também ela afecta a tamanhos Mistérios Iniciáticos!... Aliás, os pratos que pintou e estão expostos no Palácio da Penha, enchem-se de alegorias e símbolos ocultistas inscritos num temário de Patrologia Sebástica exposta num estilo barroco greco-romano, sempre destacando a Mulher, o Mar e a Barca, simbologia matriártica a que bem se ajusta a palavra de António Vieira para a Lusitânia: Mátria, e que é transpiração tanto do venusto Duat quanto de Cordo Mariz!...

 

Sempre que fitava este singelo Chalet, o primeiro em Portugal, ele não me parecia um edifício vulgar feito por uma pessoa vulgar, porque não o eram. Letizia Rattazi (in Portugal de Relance, Lisboa, 1881), assim confirma: «Um Chalet de um gosto inimitável. É a Arcádia, uma Arcádia civilizada onde de bom grado se pode viver e morrer. Sente-se que a vida, a saúde e a felicidade residem ali».

 

Essa última citação não deixa de lembrar-me o que deixou escrito Oliva Guerra num seu poema de 1957, gravado numa lápide encrostada numa penha junto às Feteiras da Condessa, na dobra do caminho levando ao Chalet:

 

                                                   “Parque da Pena ramo senhoril.

                                                    No regaço gramático da Serra,

                                                    Em teu condão de lírica beleza

                                                    Ficaste neste mundo de tristeza

                                                    Como um sonho de amor primaveril

                                                    Verde estrofe de um canto panteísta,

                                                    Paraíso que a alma nos conquista

                                                    E que, por dom de Deus, desceu à Terra!...”

 

Foto do Chalet da Condessa

O Chalet da Condessa d’Edla, o primeiro em Portugal

 

O Chalet assenta sobre uma planta rigorosamente simétrica, orientada efectivamente para o Palácio da Penha, sendo as suas janelas e portas em arcos “góticos”, como que aludindo à Arte dos “Argots” ou Mestres-Arquitectos da Idade Média.

 

A base rectangular tem a toda a volta 22 aberturas (10 portas e 12 janelas) e mais 2 óculos (1 em cada fachada lateral) onde, em cortiça (planta associada simbolicamente ao Fogo Criador do Espírito Santo), se contorna a destrocêntrica Cruz Jaina ou Jina, a Swástika, solar por excelência, expressando o Pramantha ou movimento da Evolução Universal cuja acção sobre a Terra faz-se aqui através da Corte do Quinto Senhor, composta de Adeptos Independentes perfazendo o número mercuriano 222 (presente nas referidas aberturas da casa). A Corte do Quinto Luzeiro do 5.º Sistema Planetário em formação (Manas-Budhi ou Mental-Intuicional), onde se forja a futura Raça Crística ou Bimânica no escrínio das lusas plagas sintrianas, é formada por:

 

               7     DEUSES REPRESENTATIVOS ou DHYANIS-BUDHAS

             49     DHYANIS-JIVAS ou DHARANIS

             49     ADEPTOS PERFEITOS ou DWIJAS

             49     ARAUTOS ou YOKANANS

          _68     FOLHAS SOLTAS ou PRÉ-ARHATS

          222 = ARABEL sob a “tutoria” de AKBEL (Tetragramaton inserto no Exagonon...)

 

Sendo Sintra regida por Vénus-Lua, feminina em toda a sua natureza e esplendor, então caberá à Mulher d’Edla fazer aqui as vezes de Mãe Divina, ou melhor, de Grã-Mater assinalada tanto pelo Arcano 2 (“A Sacerdotisa”) quanto pelo 22 (“A Laurenta”) do Tarot.

 

No edifício, a sua base rectangular é o duplo quadrado, dividido pelos óculos swástikos, referindo assim a fixação do Sol na Terra através da Lua, magistério da Alma cuja Arte é pertença tradicional da Sacerdotisa, aqui, “Sacerdotisa de Cyntia”, a Serra da Lua.

 

O símbolo da acção selenita é representado neste espaço pela hera, subindo pela frontaria da casa e formando árvore em sala no seu interior. A hera, no culto dionísiaco, tem a ver com a divinização feminina e a fecundação cíclica da Terra. Os 4 troncos de hera, dentro da contiguidade, aludem exactamente à Era, à Idade tradicional do Globo que não é uma mas quatro: Idades do Ouro, da Prata, do Bronze e do Ferro, esta a actual. Os decorativos geométricos enriqueciam ainda mais esta sala, como que referindo de maneira muda a Sabedoria dos Mouros, Moryas ou Marizes, como 5.ª Linha do Novo Pramantha, e a qual Sabedoria é o maior Tesouro de Sintra, Relíquia preciosa por ser a alavanca charneira de volvimento da Humanidade à Idade de Ouro, à “Primavera dos Deuses” ou, se se quiser, de retorno à arcádica Origem Divina.

 

Esse “retorno” estava assinalado no Y dos portais neogóticos, letra designativa do Itinerário da Mónada peregrina pelos diversos estágios conscienciais, sociais e nacionais. O óculo e o Y dão a palavra YO, precisamente a da peregrina Essência, neste particular contexto iluminando-se cada vez mais através da I.nstituição e O.bra do sintriano Santo Graal.

 

A hera era feita aqui de cortiça o que não deixa de ser alusão ao estado lunisolar plenamente assumido pela condição Feminina tendo assim readquirido o estado primevo de Andrógino ou Adepto Perfeito, após a titânica batalha humana contra a adversidade mundana do vulgar e profano, portando-se assim como um verdadeiro Hércules, termo este que tanto vale, na glótica dórica, por divina Glória de Hera... em qualquer Era.

 

O andar cimeiro do Chalet era cruciforme, isto é, em cruz. Possuía 20 aberturas (8 portas e 12 janelas), correspondentes a outros tantos Arcanos, dos quais o vigésimo (“O Julgamento”) tem a ver com a superação da Era, deste Ciclo de Necessidade ou Kali-Yuga (Idade do Ferro). Enquanto isso, o oitavo (“A Justiça”) corresponde à demanda da Iluminação lançando-se através do décimo segundo (“O Dependurado”), o da imolação da personalidade material pelo triunfo da Individualidade espiritual.

 

Na planta do edifício, a cruz sobre o duplo quadrado dividido pelo óculo ou círculo solar, é referência imediata à crucificação do Espírito na Matéria.

 

Caberia à Condessa libertar o Espírito, o seu Espírito, assim se superando. Tamanha tarefa exigia muito recolhimento, e assim o fez, a ponto de quase se eclipsar da ribalta social da época, refugiando-se (saberia ela bem porque...) nos recônditos sibilinos da sua “querida Pena”, decerto sabedora de quantos inigualáveis e secretos Mistérios ela encerra, como se deduz da carta que enviou a D. Manuel II, em 9 de Agosto de 1910: «Este ano V. Majestade abandonou a querida Pena? Bussaco parece-se, arvoredo bom e cedros muito maiores mas... Pena é outra cousa».

 

Como dizia, essa Libertação do Espírito equivale à conquista da Pedra Filosofal, cujo emblema é exactamente a Rosacruz assinalada, aliás, na disposição do andar cimeiro e nos óculos no ponto divisório da residência.

 

Do possível postulado da Alquimia pela Condessa d’Edla, e muito provavelmente da Espagiria, para além da planta de sua casa subsistem outras referências, vagas mas de suma importância ao caso. Uma seria o lavabo da cozinha, de mármore com motivo bordaliano: uma rã de cuja boca jorrava água para uma bacia contornada por hera. Sendo a designativa da rota (ou taro, anagramaticamente), a água correndo por ela para o vaso da hera só pode significar, esotericamente, a liquefacção alquímica, na qual a água é o elemento fundamental nesta fase da Grande Obra, correspondendo à purificação da alma humana.

 

Outra referência será o sítio das “Pedras da Condessa” ou “do Chalet”, próximo deste, onde numa espécie de furna a morganática dedicava-se à torrefacção de folhas de chá e ao experimento espagírico de plantas colhidas no Parque. A lavagem das folhas e ervas recolhidas a faria num pequeno lago, em meia-lua, nas traseiras da sua residência, conforme sugere o seu neto Mário de Azevedo Gomes (in ob. cit.).

 

Merecerá melhor trato e respeito esta “Druidisa” da Serra de Sintra a quem tanto amou, cultivou e protegeu, dos que teve até hoje por parte de muitos letrados e políticos... invejosos e maledicentes, que acabam envenenados pelo seu próprio fel.

 

Sim porque tanto em vida como depois de morta foi maltratado e muito por muitos a quem ela só fez bem, ou então nunca conheceu pessoalmente. Acabou quase só. Aos 93 anos de idade, na madrugada do dia 21 de Maio de 1929, à uma hora e cinco minutos, a Condessa morria de uremia no Palacete de Santa Marta, em Lisboa. Assistiu aos últimos momentos a sua filha Alice Hensler e seus filhos, além de um amigo de grande confiança da Condessa, chamado Augusto Sequeira Cilia. Já depois de morta vieram despedir-se dela os dois grandes artistas que lhe ficaram devendo muito do seu sucesso profissional com as pensões que obtiveram para viver na Alemanha e Paris, mestre Columbano Bordalo Pinheiro e o pianista Viana da Mota.

 

A morta foi descrita como estando vestida de veludo preto, antigo, com rendas preciosas nos punhos cobrindo-lhe as mãos que seguravam um pequeno crucifixo, e tendo o rosto tapado com um véu de espessa gaze.

 

De maneira que, como bem diz Teresa Rebelo (in Condessa d´Edla, Lisboa, Fevereiro de 2006), nesse cenário de morte o ritual confundia-se mais uma vez com o Teatro da Vida, e os artigos publicados sobre a morte da Condessa alargaram-se em comentários extensivos sobre a sua vida ao lado do Rei D. Fernando II e, curiosamente, em proclamados elogios à sua faceta de mulher generosa. Para desconforto dos muitos que em vida a tinham descriminado, a Condessa d’ Edla recebeu na morte o tratamento e as honras de uma figura de estado; a própria Rainha D. Amélia e o Rei deposto D. Manuel II mandaram representar-se pelo Visconde d’Asseca.

 

Depois de ter sido encerrada num caixão de chumbo posto numa urna de magno e colocado em frente de um altar e do retrato do Rei D. Fernando II, seguiu-se a missa religiosa com Ernesto de Sena Oliveira, prior do Coração de Jesus, e depois realizou-se o funeral por volta das quatro horas da tarde, no Cemitério dos Prazeres, Lisboa. Ainda segundo Teresa Rebelo, o cadáver da Condessa foi colocado provisoriamente no jazigo de família de Alice Hensler Azevedo Gomes, enquanto se edificava a sua campa num jazigo próprio da autoria de Raul Lino, em forma de arca de pedra com uma Cruz reproduzida da Cruz Alta de Sintra, que apresenta o simples epitáfio: «Aqui jaz Elisa Hensler, viúva de sua Majestade El-Rei D. Fernando II de Portugal, nascida em 1836 e falecida em 1929». A criatividade do grande arquitecto português neste projecto terá sido limitada pelos últimos desejos e memórias da Condessa d´Edla que, não podendo ir morrer a Sintra, mandou trazer a vegetação e as pedras de Sintra para Lisboa, para que a cobrissem por todo o sempre... e para todo o sempre a marcassem como Filha dilecta do Pico do Graal.

 

No seu livro tão valioso quanto importante, Teresa Rebelo informa que a generosidade exaltada em vida da Condessa d´Edla pela protecção aos artistas e pobres, manifestou-se no seu testamento através da doação de vários legados a pessoas amigas, familiares e ainda instituições de caridade e beneficência social. Ao lê-lo tem-se que:

 

Ao Rei D. Manuel exilado deixou um precioso camafeu representando Cristo entre os Apóstolos, dois medalhões de mármore, uma espada com embutidos de mármore azul, o retrato de El-Rei D. Fernando II, do pintor Leyrand, e um retrato do infante D. Augusto, do pintor Sousa Pinto. À Rainha D. Amélia terá deixado um quadro de bronze dourado, “A Piedade”, e tudo o que continha uma vitrine existente na sua casa da Rua de Santa Marta. À esposa do Rei D. Manuel, a Princesa D. Augusta Vitória, um álbum escrito pela Princesa de Saxe-Coburgo Gotha, mãe do Rei D. Fernando, e um gato de prata por ele cinzelado. Como homenagem ao Museu de Arte Antiga de Lisboa, e com a ideia de que fosse criada uma sala chamada “Rei Dom Fernando II”, deixou um retrato do mesmo tamanho natural pintado por Leyrand. Além deste quadro, que actualmente se encontra no Palácio da Pena em Sintra, doou também um quadro representando o Menino Jesus entre os doutores, um Cristo de marfim do célebre Terrilhas, um quadro com a Nossa Senhora e o Menino Jesus pintado pela Josefa d´Ayalla em 1617, dois quadros antigos e outro representando um casamento, um quadro com Nossa Senhora e o Menino Jesus e São José assinado por José Gonsales Paz e datado de 1770, um baixo relevo em madeira representando o Calvário e um desenho de Sequeira, duas jarras de loiça de Sacavém  pintadas por D. Fernando e as chapas das gravuras originais desenhadas pelo Rei, um busto do Infante D. Henrique, Duque de Viseu, uma estatueta do Anjo de Ciodosi e outra de Barye, seis colheres antigas em vários estilos e ainda vários álbuns, gravuras e livros raros da colecção de D. Fernando.

 

Com efeito, a Condessa d´Edla possuía verdadeiras preciosidades bibliográficas, supostamente aconselhada pelo Rei D. Fernando II. Muitos desses livros foram adquiridos pelo coleccionador Duarte de Sousa, e outros deixados em testamento ao Museum of Fine Arts de Boston.

 

Como amante e mulher da música, entendeu por bem deixar ao Conservatório Nacional de Música todas as partituras existentes nas suas casas de Lisboa e Parede.

 

Quanto às instituições, deixou ao Asilo de Cegos Branco Rodrigues quinhentos escudos, à Associação do Mealheiro das Viúvas e Órfãos dos Operários Mortos de Desastre no Trabalho igual quantia, à Sociedade Protectora dos Animais duzentos escudos. Ao Pavilhão para Tuberculosos do Lumiar, mil escudos. Vinte esmolas de dez escudos para vinte viúvas pobres da freguesia do Coração de Jesus, duzentos escudos para os pobres de Sintra, e quinhentos escudos para o Hospital de Sintra. Ainda determinou o desejo de ser entregue à Condessa de Mossâmedes a quantia de mil escudos para instituições de beneficência.

 

O testamento da Condessa d´Edla ainda mandou que se rezassem cinquenta missas por alma do Rei D. Fernando II, outras cinquenta por alma do infante D. Augusto e vinte e cinco por alma dela própria, a testamentária, sem deixar de referir reconhecidos agradecimentos à Rainha D. Amélia, com as palavras: «Tem sido o meu anjo consolador em todas as amarguras da vida. As distinções que lhe devo são tantas e tão superiores, que não podem sair da minha lembrança senão quando de todo se apagar a vida.»

 

Despojada ela de tudo quanto licitamente lhe pertencia – mal morreu deu-se a corrida abutre aos seus haveres, leiloados em hasta pública e motivo de notícia nos jornais durante vários dias –, ficou o Chalet do Parque da Pena votado ao abandono, a crescente ruína que o incêndio criminoso ceifou numa hora cruel. Reconstituir o edifício, que plantas e desenhos há para isso, e boa-vontade também deverá haver (como igualmente repor a Cruz Alta que um raio decepou), tal seria a maior homenagem que se poderia fazer à Dama de Sintra, à sua memória e obra, enfim, a Elise Hensler, Condessa d’Edla... quase Rainha de Portugal e de Espanha.

 

 

 

OBRAS CONSULTADAS

 

 

Mário de Azevedo Gomes, Monografia do Parque da Pena. Lisboa, 1960.

 

Maria Lília Solipa Carneiro, O Chalet da Condessa d’Edla. Sintra, 1988.

 

Anne de Stoop, Quintas e Palácios nos Arredores de Lisboa. Porto, 1986.

 

Tude M. de Sousa, Mosteiro, Palácio e Parque da Pena, na Serra de Sintra. Sintra, 1951.

 

Máximo Estrela, Perfil da Condessa d’Edla. Lisboa, 1886.

 

José Teixeira, D. Fernando II (Rei-Artista, Artista-Rei). Fundação da Casa de Bragança, 1986.

 

Teresa Rebelo, Condessa d´Edla – A cantora de ópera quase Rainha de Portugal e de Espanha (1836 – 1929). Alétheia Editores, Lisboa, Fevereiro de 2006.

 

Sintra – As ruínas de um Amor. Reportagem de Manuela Gonzaga, com fotografias de José Chan, junto de Vitor Manuel Adrião e demais membros da Comunidade Teúrgica Portuguesa, referente à destruição do Chalet da Condessa d´Edla. In semanário O Independente, ano XI, n.º 584, 23 de Julho de 1999.

 

Vítor Serrão, Sintra. Editorial Presença, 1.ª edição, Lisboa, 1989.

 

Reiner Daehnardt, Páginas Secretas da História de Portugal, volume I, Lisboa, 1993.

 

Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos. Paris, 1906.

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