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Assunto Tópico: O CASTELO DE MONTE SALVAT - Sintra Nova mensagemNovo tópico
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Colocado: 2006 - 14 - Outubro às 12:49 | IP Ligado Citar admin

O CASTELO DE MONTE SALVAT

 

POR

 

VITOR MANUEL ADRIÃO

 

 

 

 

(REPORTAGEM “JORNAL DE SINTRA”, 6.ª FEIRA, 4 DE ABRIL DE 1997)

 

 

 

 

             Sintra é de longa data feudo mourisco de místicas e graalísticas tradições. Antes da sua pacífica e definitiva tomada em 1147 por D. Afonso Henriques, já em 1093 D. Afonso VI, rei de Leão, aproveitando as lutas que dividiam a Hispânia árabe, pôs-se ao lado dos emires de Sevilha e Badajoz e, em troca, obteve do governante almorávida de Badajoz, Mutawaquil, a posse de várias terras da bacia do Tejo e os castelos de Santarém, Lisboa e Sintra, nesta última tendo posto como governador D. Raimundo, seu genro, e debaixo da autoridade deste, a Soeiro Mendes.

 

             Veio depois a ficar sob o governo do conde D. Henrique, mas com a morte do seu sogro, D. Afonso VI, em 1109, acabou por perder as praças em 1095, que o seu filho D. Afonso Henriques iria reconquistar definitivamente em 1147, concedendo Carta de Foral a Sintra em 9 de Janeiro de 1154.

 

             Um dos lugares de maiores tradições ligadas aos Mouros sintrianos é, indubitavelmente, o seu misterioso Castelo dilatando-se do cume pelas encostas do Monte das Penhas ou dos Penedos, e dele me ocuparei agora.

 

             Primitivo lugar castrejo, de que aqui e ali ainda sobrevivem testemunhos, como fortaleza data dos finais do século VIII e inícios do IX, portanto praticamente dos inícios da ocupação árabe da Península Ibérica. Foi reparada por várias vezes: primeiro por D. Sancho I, depois por D. Dinis que contratou para esse efeito os mouros livres de Colares, e finalmente por D. Fernando I (em 1373), sendo ocupada por Nuno Álvares Pereira, o “Santo Condestável”, durante a crise nacional que desfechou em Aljubarrota com a derrota estrondosa das pretensões ocupacionistas castelhanas. Abandonado por desnecessário, o castelo caiu em ruínas (no século XV era habitado por judeus deserdados da Vila e, após expulsos do País, no século XVI ele ficou completamente desabitado), só vindo a beneficiar no século XIX das obras de consolidação que ficaram se devendo a D. Fernando II de Saxe-Coburgo Gotha, ganhando a fortaleza o aspecto que hoje todos conhecem.

 

             Classificado monumento nacional por decreto-lei publicado em 23 de Junho de 1910, assim como a cisterna e todo o espaço em redor, o castelo desenvolve as suas muralhas em volta de dois montes (o do Sol e o da Lua), com duas cintas muralhadas, em parte desaparecida a exterior, mas bem conservada a interior, com passo de ronda, cubelos e baluartes. O monumento apresenta planta orgânica (adaptada ao terreno) com cerca de 450 metros de perímetro e 12.000 m2 de área.

 

             Das edificações que existiram na fortaleza, pouco resta: alguns alicerces, restos de uma sala, com um banco corrido à volta, as cisternas árabes e os bebedouros ou lavadouros, que a mítica local teima serem baptistérios.

 

             De valor geoestratégico incontestável, a fortaleza está a cerca de 450 metros de altitude e antanho controlava tanto o território para Norte (Ericeira, Mafra, etc.) quanto para Sul (Lisboa, etc.), ocupando assim uma posição predominante nesta parte da Estremadura.

 

             Mas este não é mais um castelo... é uma Rábita ou Templo-Fortaleza de Cavaleiros Monges, primitivamente Fatímidas. A dupla muralha (tal como a vimos em Tomar e em Leiria) possui o sentido iniciático de peregrinação para o centro, o Centro Primordial, aqui representado pela Mesquita de Fátima, que depois veio a ser a Capela de S. Pedro de Penaferrim (isto é, Pena (Báculo) e Ferrim (Espada), onde guerreiros ermitãos com anseios de santidade, e mulheres com anseios de ermitãs e igual santidade, tributavam juntos a uma mesma ara, pedra ou penha consagrada ao Eterno, o que filologicamente viria a dar em Pedro, actual Padroeiro do Concelho). Melhor que essa novel consagração titular cristã, seria a bem serrana: Santa Penha de Penaferrim.

Foto do Castelo de Sintra

Castelo dos Mouros, Sintra

A capela – com culto activo até meados do século XVI – ainda apresenta no tecto restos de frescos moçárabes, e nos capitéis românicos, cruzes Templárias, já bastante apagadas pelas inclemências do tempo. De abóbada em berço, com arco de volta inteira, junto à entrada lateral, no exterior, situava-se o cemitério, antes mastaba, com casas anexas, onde agora cristãos e mouros jazem juntos na Eternidade.

 

             Quer dentro do castelo, quer à sua volta há um conjunto indeterminado de cavidades naturais e artificiais quase todas obstruídas, mergulhando nas entranhas profundas da Terra. “Coisas de mouros”, diz o povo. Sim, de Mouros, Moryas, Maurus, Maruts, Marizes...

 

             Conta a lenda do sítio existir sob o castelo um enorme espaço subterrâneo com lago, onde os misteriosos Mouros celebravam o seu não menos misterioso Culto às “Forças Invisíveis”, que é dizer, Culto de Melkitsedek, “Forças” essas que os sustinham e defendiam. Diz também quem conhece o lugar que, às vezes, das brumas da serra aparecem e desaparecem misteriosas figuras vestidas de branco. Enfim, lendas e tradições...

 

             Às mesmas se liga a “cisterna dos Mouros” do castelo, cuja nascente é a mesma que abastecia o Paço Real da Vila: diz a lenda que debaixo dela se encontra enterrado e encerrado num sarcófago um Rei Mouro, protegido até hoje por uma horda de Génios cuja fúria, se provocada, é demoniacamente implacável.

 

             A muralha apresenta cinco torres: quatro de planta rectangular e uma de planta circular encimadas por merlões piramidais, já sem vestígio dos dois pisos e do sistema de cobertura primitivos. A torre de menagem – na qual a queda dum raio em 1636 causou danos, grandemente aumentados pelo terramoto de 1755 –  suspende-se sobre a Vila e domina como atalaia os arredores, o que designa a função militar, a de poder temporal defensivo da fortaleza. Junto a esta torre está uma tulha muito bem entulhada que esconde um túnel ligando, por caminho subterrâneo com cerca de 8 quilómetros, o castelo a Rio de Mouro – por aí terá desembocado a parca população castelã após a conquista pacífica de Xentra pelo “terrível” Ibne Arrique, ou seja o arábigo Afonso Henriques.

 

Subindo 500 degraus chega-se à outra torre real, também atalaia, onde se goza a suprema visão do panorama deslumbrante da floresta e montes de Sintra, estendida a dilatadas terras e pelo mar afora. Era aqui que no século XVI o poeta, prosador lírico e adepto da Alquimia, Bernardim Ribeiro, procurava a inspiração no bom fim a dar à sua pena, e para que o espírito não lhe faltasse aí mesmo viveu algum tempo!... Certamente esta parte elevada da fortaleza mais que de vigia da retaguarda da mesma sobre a mata densa e penedia alcantilada, serviria como observatório astronómico onde os sábios do Islão elevavam os seus olhares e as suas preces aos deuses dos éteres profundos. A função da atalaia é bem mais espiritual, expressiva da autoridade sacerdotal, e é o ponto mais elevado do castelo (455 m), onde se roça o Céu qual “Pico do Graal”.

 

             Voltando à atalaia ou atalaya, significa etimologicamente: “testemunha” e “guardiã”, aqui, das relíquias mais eloquentes da civilização passada, a Atlante, ocultas, inacessíveis às gentes vulgares. Em todos os lugares seculares, senão milenares, há uma atalaia como guardiã e testemunha das gentes e tradição local, mas, na razão mais profunda, sendo o espelho akáshico por onde o Iniciado mira os miríficos Mistérios da Natureza, cuja luz etérea registra tudo quanto já houve, há e haverá no Mundo.

 

             Estando o quinto elemento etérico ou akáshico sob a égide de Vénus e da Mãe Divina, não é pois de admirar que Ela seja a Guardiã dos “Portais do Céus”: a Senhora da Atalaya.

 

             A atalaia é o posto-avançado do Cavaleiro Monge, seja árabe ou cristão, do Iniciado na Cavalaria Celeste, o Arrábido ou Rábito cujas Iniciações Secretas, Moryas ou Maruts, se processavam sempre em não menos secretos Hipogeos.

 

             Ainda a ver com este Castelo de Sintra se liga a lenda de Melides, que assim conta: – Após a conquista de Santarém, o rei D. Afonso Henriques impôs um cerco a Lisboa, que se estendeu por três meses. Embora o Castelo de Sintra tenha se entregue voluntariamente após a queda de Lisboa, reza esta lenda que, nessa ocasião, receoso de um ataque de surpresa às suas forças, por parte dos mouros de Sintra, o soberano incumbiu D. Gil, um cavaleiro templário, que formasse um grupo com vinte homens da mais estrita confiança, para secretamente irem ali observar o movimento inimigo, prevenindo-se ao mesmo tempo de um deslocamento dos mouros de Lisboa, via Cascais, pelo rio Tejo até Sintra. Os cruzados colocaram-se a caminho sigilosamente. Para evitar serem avistados, viajaram de noite, ocultando-se de dia, pelo caminho de Torres Vedras até Santa Cruz, pela costa até Colares, buscando ainda evitar Albernoz, um temido chefe mouro de Colares, que possuía fama de matador de cristãos. Entre Colares e o Penedo, Nossa Senhora apareceu aos receosos cavaleiros e lhes disse: “Não tenhais medo porque ides vinte mas ides mil, mil ides porque ides vinte”. Desse modo, cheios de coragem porque a Senhora estava com eles, ao final de cinco dias de percurso confrontaram o inimigo, derrotando-o e conquistando o Castelo dos Mouros de Colares. Em homenagem a este feito foi erguida a Capela de Nossa Senhora de Melides.

 

             Finalmente, quem vai a Sintra e não visita o seu Castelo, é o mesmo que nada, e nada entenderá do ser profundo desta idílica Estância. Carece a visita, a peregrinação a este excelso Santuário testemunho intemporal das Armas e Preces lusitanas e que, apesar das suas paredes velhinhas, mantém-se vivo como facho aceso de Portugal para o Mundo.

 

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